Terabatera


Usar todo o tempo livre disponível para estudar e pesquisar: esta foi a chave do desenvolvimento musical e artístico de Fábio de Godoy. Hoje, ele tem um projeto solo que une música eletrônica com vídeo arte de caráter ambientalista e toca com William Marques no projeto Pindorama. Ele tem grande controle sobre sua carreira e sua obra, e isso é importantíssimo.

Seu Terabatera Show é um “live P.A.” estendido, incluindo o controle de vídeo e luz. Como você desenvolveu a idéia?
A idéia do Terabatera Show surgiu em 2005 com uma história curiosa: eu tinha acabado de voltar de uma palestra da área ambiental e, durante o intervalo desta palestra, rolou um vídeo de um show da Madonna no telão do auditório. Então, lá estava eu, com uma coxinha na mão, me imaginando em cima do palco do auditório tocando para o pessoal, enquanto  os vídeos que estavam rolando na palestra passavam no telão. Seria uma maneira diferente de apresentar as palestras. Apesar da idéia esdrúxula, eu me sentia bem pensando naquilo. Só não sabia como poderia falar sobre isso com alguém sem parecer louco. Por “coincidência” (o que para mim não existe), no dia seguinte, sem querer, vi um vídeo do Tony Verderosa tocando samples disparados na batera. Haviam imagens temáticas de natureza e animais rolando atrás dele, projetadas por um VJ. Foi nesse momento que me inspirei e percebi que podia  juntar minhas duas formações (músico e ambientalista), produzir vídeos temáticos referentes a questões ambientais, tocar  e controlar tudo em tempo real. Então listei quais seriam as necessidades do show (música, vídeos e iluminação) e vi que podia controlar isso sozinho.  Imediatamente comecei a fuçar todo material referente a Tony Verderosa e a pesquisar sobre edição de vídeos. Com a pesquisa, caí na cena eletrônica, onde os VJs mais atuam. Comecei a freqüentar festas de música eletrônica munido de uma filmadora, papel e caneta. Parecia um ET no meio da galera. Enquanto todos pulavam, eu escrevia e filmava o que achava necessário. Conheci muita gente legal, VJs que me ensinaram muito. Também  aprendi muito sobre estilos e tendências com  DJs que são amigos meus até hoje.

Trabalhar com novas tendências de música eletrônica exige técnica. O que você mais precisou desenvolver, tecnicamente, para executar o projeto?
Primeiro pesquisei muito, meses a fio. Não queria me atrever a tocar em uma balada de música eletrônica sem saber exatamente o que estava fazendo, pois quem está lá ouvindo sabe o que quer e exige o mesmo. Fiz curso de produção de música eletrônica e, em seguida, entrei na Pós Graduação da ECA–USP como aluno ouvinte para fazer matérias referentes à produção de áudio e vídeo. Lá conheci a produção musical  desde Thomas Edson, com a invenção do fonógrafo, até o DJ Mau Mau. A pesquisa é fundamental, e hoje a Internet têm tudo. Está bem fácil entender as coisas. Poderia tocar empiricamente música eletrônica, mas entendendo sua origem e sua história, posso executar as músicas de forma mais consciente, sem medo de colocar notas que podem descaracterizar o beat. Depois da pesquisa, o que mais procurei desenvolver para tocar música eletrônica foi a precisão em conduções rápidas utilizando dinâmica (ghost notes)  e viradas em semicolcheia que utilizem também essa dinâmica para  tornar a performance mais fluída do que  normalmente se ouviria em uma música eletrônica. Procuro colocar  um “molho” nas conduções e o funk se encaixa muito bem em diversos estilos deste gênero. Aliás, fui direto na fonte, ouvindo James Brown com as levadas de Bernard Purdie. Para mim, é a base da maioria das levadas de música eletrônica. Tirei  algumas frases interessantes também de obras do Johnny Rabb e Tony Verderosa. Também aprendi muita coisa observando Jojo Mayer. As dicas desses caras funcionam bem para Jungle e Drum’n’bass. Kj Sawka também é uma ótima referência. Vocês podem encontrar esse material facilmente em vídeos do YouTube.

Você também é baterista do projeto Pindorama, de William Marques. O que essa situação exige de você?
Lá somos uma banda e tive que me adaptar novamente a tocar em grupo,  já que priorizei todo meu trabalho, durante os últimos anos, em performances solo (workshops, Raves e o Terabatera Show). As composições do Pindorama têm muitas citações de samba, ijexá, forró, etc., misturadas com a chamada "nova MPB", a exemplo de Zeca Baleiro, O Teatro Mágico, Cordel do Fogo Encantado, entre outros. Então, tive que rever muitos dos ritmos para poder tocar com eles. Como o Willians é um percussionista que  vêm de uma sólida formação de samba (antes de participar do O Teatro Mágico), ele  me deu as dicas quando foi preciso, aí ficou fácil.

Você pretende trazer o WFD (World’s Fastest Drummer, com Mike Mangini) ao Brasil. Como anda esse projeto? Você já participou de algum concurso?
Bom, para quem ainda não conhece a história, vou fazer um breve resumo: não participei diretamente do concurso lá nos EUA. O que fiz foi postar uns vídeos meus no YouTube utilizando o aparelho (Drumometer), pois eu já o tinha e sempre fazia aquecimento nele antes de começar o estudo. É um aparelho bem interessante, dá para aquecer se divertindo! Mas também é meio “viciante”, você vê os números passando ali e pensa: “Bom, só mais uma e vez depois eu paro”, e de minuto em minuto passa-se uma hora! Depois de um tempo, recebi um email do próprio dono do Drumometer nos EUA comentando meu vídeo e sugerindo que fizéssemos o concurso por aqui. Ele me disse que poderia fazer um evento onde eu e Mike Mangini (que já participou do concurso) seríamos os anfitriões, nos moldes do concurso americano, e me perguntou se teria condições de fazer um workshop junto de Mike Mangini, já que não tinha me visto tocar. Então enviei um áudio meu tocando e pedi para ele avaliar. Comentei a idéia com meus patrocinadores que, por sua vez, fizeram contato com algumas lojas, e todas se interessaram em fazer o evento. O projeto está pronto, o evento elaborado, mas a contrapartida  financeira (cotas) ainda não está definida entre os patrocinadores. Um fato legal é que enviei o projeto para a Red Bull, que é um dos apoiadores do evento nos EUA, e a Red Bull Brasil se prontificou imediatamente a participar. Acho que vai ser divertido, e tocar com o Mike Mangini, uma experiência bem legal. Na verdade, nunca imaginei que postando um vídeo no YouTube eu criaria a oportunidade de tocar com Mike Manigni. Só por isso já valeu.

Além de músico, você é engenheiro, pós-graduado em meio-ambiente, e foi pesquisador até pouco tempo atrás. Que dica pode nos dar quanto à disciplina e organização do tempo?
A organização do tempo é fundamental para você conseguir conciliar as coisas. Não tem muita escapatória: é aproveitar o tempo livre. Se você está trabalhando, não pode estudar bateria, por exemplo. Eu poderia dar uma resposta mais rápida e simples como: “Todo o tempo livre eu estudava e pesquisava para viabilizar o meu projeto”. Mas o que acho interessante ressaltar é de onde vinha a disposição para acordar mais cedo, estudar, ou ficar sem almoço muitas e muitas vezes e nem reparar nisso. Tudo isso é bem familiar a todos, e vem de um sentimento comum chamado desejo. Quando você deseja muito algo que ainda não têm, cria disciplina e organização. Com isso, literalmente, você ganha tempo para dedicar a energia necessária para realizá-lo. Então, na prática, no meu caso, acordava mais cedo para estudar bateria. Tinha disposição, pois era alimentado pelo desejo do meu objetivo. Ao invés de almoçar, comia rapidamente alguma coisa e ia pesquisar  na Internet matérias referentes ao meu projeto. À noite, sempre arrumava uma horinha aqui, outra lá para estudar na borracha, no travesseiro, enfim, aonde desse. Sábados e domingos eram quando tinha mais tempo livre, então começava às seis da manhã. Qualquer tempo livre você pode usar para alimentar seu sonho, seu objetivo. Basta estar envolvido e empolgado. Portanto, essa é a dica: crie um objetivo pelo qual você se sinta totalmente envolvido e “apaixonado”. Com isso, criará motivação e energia para aproveitar todo o tempo livre para torná-lo realidade.

 

Vídeo:

 



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