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Billy Ponzio é um baterista de jazz. Mas daquele jazz tradicional, do começo do século XX, que tem influências de bateristas conhecidos pelos aficionados, como Baby Dodds e Sid Catlett, e que teve um formação semelhante a daqueles bateristas. Iniciou-se estudando com um grande mestre – neste caso, Pércio Sápia – e depois seguiu seu próprio caminho. E agora ele mostra seu trabalho autoral, Space Jazz, unindo suas influências “vintage” a idéias modernas, concepções progressivas e muitos elementos eletrônicos. Aliás, bem moderno: o trabalho está disponível para download gratuito.
O que o inspirou a desenvolver o projeto Space Jazz?
Minha inspiração para compor o Space Jazz veio da falta que eu sentia (e ainda sinto), de escutar coisas originais. O nível técnico do pessoal hoje em dia é muito bom, mas acho que a criatividade ficou para trás. Sinto tudo muito repetitivo, sem ousadia, sem originalidade... Parece mais uma competição técnica “para não ficar para trás”, sabe? E fica nisso, sem propor nada novo. Sem se arriscar. Os grandes do passado inovaram e nos trouxeram até aqui. É nossa responsabilidade levar a próxima geração a um novo patamar musical, que não é técnico a meu ver, e sim baseado na inventividade e musicalidade. A questão é que, para se fazer algo novo, corre-se um risco. O risco de se expor, o risco de causar estranheza nos outros, o risco de se frustrar e o risco de não gostarem do seu trabalho. Não é todo mundo que topa essa parada.
Fica muito evidente a influência de bateristas mais antigos e timbres “vintage”. Como é seu trabalho de pesquisa sonora?
Gosto muito da sonoridade vintage pois é humana, orgânica. Você sente o baterista tocando e a bateria soando naturalmente. Você percebe quando uma baquetada não saiu perfeita, escuta os harmônicos desafinados dos tons, a sujeira dos pratos e chimbal... Eu acho isso fantástico! Vivo e real! O baterista era obrigado a saber tirar o som da bateria em qualquer condição. Não dependia de grandes equipamentos ou microfones. Ele conduzia no feeling as dinâmicas da banda e tinha que se adequar ao ambiente, saber tocar tanto em uma sala de estar como no Carnegie Hall. Comecei a aprender estes conceitos aos 13 anos com um cara que, na minha opinião, é um dos mais completos e refinados bateristas da atualidade: Pércio Sápia. Sendo assim, meu ponto de partida para criar minha sonoridade vem dos antigos mestres. Quando digo antigos, falo dos antigos mesmo, ou seja, dos primeiros bateristas da história, como Baby Dodds, Zutty Singleton, Tony Sbarbaro, Ray Bauduc e Sidney Catlett, só para citar alguns. São nomes que eu nunca tinha ouvido falar até alguns anos atrás, e só depois de muito tempo me foram “apresentados” pelo clarinetista Tito Martino. Aquela concepção de rulos de caixa dançante, com frases sincopadas usando woodblock e cowbells com bumbo percutido com as baquetas, tudo parecendo uma grande “brincadeira”, me fez parar e rever meus conceitos sobre bateria. Os bateristas tradicionais tocavam daquela forma no jazz tradicional. Minha proposta tenta trazer aquela linguagem antiga para composições modernas.
É um tesouro que lamentavelmente não é bem divulgado e, quando é, há poucos músicos que dão o valor que isso merece. Os grandes do jazz da década de 60, que também são minhas grandes influências (Max Roach, Kenny Clarke, Art Blakey, Elvin Jones, Tony Williams, Joe Morello, Vernell Fournier, Shelly Manne, etc.) modernizaram a bateria do jeito maravilhoso que fizeram por terem, antes, construído suas bases nessas fontes. Ainda encontram-se CDs com esse material raro na Amazon.com.
E há o clima de música eletrônica, com pitadas de acid jazz. De onde vem estas idéias?
Um pouco parodoxal, não é? Saímos de “1900 e nada” para os dias de hoje. Mas a “relatividade” não é isso mesmo? Passado, presente e futuro juntos? Há climas na música eletrônica, como também no rock progressivo, que transportam a gente para uma viagem de imaginação mais intimista, sensorial, quase espiritual. Sempre amei esses climas. Acho que falta mais disso hoje em dia. Parar o corre-corre e sentir a música de uma forma mais profunda. Esses climas trazem essa sensação e são perfeitamente complementares ao jazz. Por exemplo, pegue “So What”, do álbum Kind Of Blue, de 1958, do Miles Davis... É pura viagem. É o avô do acid jazz. Mas, falando de algo mais moderno, gosto muito de um gaitista escocês, que infelizmente morreu muito jovem, chamado Martyn Bennett. Ele misturava gaita de foles escocesa e flauta pan com a atmosfera eletrônica... Fantástico. Me influenciou muito.
Todas as composições são suas? Você estudou um instrumento harmônico? Como isso muda sua maneira de tocar?
Sim, são todas minhas. Chegou uma hora que fiquei cansado de só tocar música dos outros e não criar nada novo. Mas meu processo não foi fácil. Eu tinha muitas idéias de melodia, mas não tinha a menor noção harmônica. Fui tentar passar essas idéias para um pessoal que tocava comigo na época mas, por maior que fosse a boa vontade que tivessem, era muito difícil. Era uma piada [risos]. Então, já que estava “duro” e não podia pagar por aulas, peguei um teclado velho emprestado de um amigo, comprei
um livro de harmonia e, com uma dica aqui e outra ali dos amigos músicos, fui tendo as noções básicas harmônicas para compor decentemente. Depois que já conseguia criar as músicas escritas e cifradas, me faltavam os músicos. Quando se trata de tocar standards, o que não falta é gente pra chamar. Agora, quando se trata de criar algo novo, autoral, não remunerado e ainda por cima meio esquisito... [risos]. Chamei quem eu podia e não podia, mas nada de alguém se envolver, com exceção do guitarrista Eduardo Buso no “Tema 20”, e Flavio Marchesin no baixo e teclados nos “Tema 04” e “Tema 08”. De duas uma: ou eu estacionava o projeto, ou teria que me superar de novo. Como era praticamente uma necessidade visceral fazê-lo, tive que me meter nos pianos e fazer os solos de uma forma tão doida que outra hora eu conto [risos]. Claro que meu próximo passo é formar uma banda e apresentar esse material ao vivo, mas vai depender de encontrar as pessoas certas para isso. Se alguém que estiver lendo (e não for baterista) se habilitar... Entre em contato!
Hoje vejo que, nesse processo de criação do Space Jazz, por mais difícil que tenha sido, eu tinha que estar sozinho mesmo. Novas composições são postadas com frequência no meu site www.spacejazz.com.br. Por isso, se alguém gostar do som, dê uma olhada lá de vez em quando, para saber das novidades. Todas as músicas estão disponíveis para download gratuitamente. Estejam à vontade.
Você também toca na Tito Martino Jazz Band. Como é esse trabalho?
Tenho muita sorte de ter encontrado um cara como o Tito no meu caminho e fazer parte do seu conjunto, que também tem músicos incríveis. Tenho 34 anos e, tirando meu amigo banjoísta Simielli Jr, que tem a mesma idade que eu, toco com um pessoal que vai dos 54 aos 74 anos (eles vão me matar de entregar a idade deles [risos]). Nomes como os pianistas Ari Giorgi e Luchin Montoya, os contrabaixistas Zeca Araújo e Daniel Grisanti, os pistonistas André Busic e Carlos Lima, os trombonistas Alexandre Arruda e Willie Anderson, o baterista Paulinho de Lima, para citar alguns. A gente aprende muito tocando com músicos mais velhos, porque eles adquiriram no tempo um refinamento e bom gosto que leva à aquela máxima que todo músico deve um dia alcançar: “menos é mais”. Ou seja, tocar poucas notas, mas exatamente as notas de que a música precisa.
O Tito é um dos pioneiros do jazz no Brasil, um defensor purista de suas raízes. Quase tudo que sei sobre o jazz, devo a ele. Se hoje crio esse trabalho jazzístico que faz uma ponte entre passado e futuro, devo toda base a ele, que me apresentou aos “segredos” e histórias esquecidas dos primórdios desse estilo que foi nada menos que a origem da música contemporânea.
Conheça mais sobre o trabalho de Billy Ponzio nos sites www.spacejazz.com.br e www.titomartinojazzband.com.br