Consciência musical


Tocar numa banda independente e viver do som. Claro que todos sonhamos com isso, mas nossa realidade às vezes não é compatível com essa possibilidade. Rafael Tortola e sua banda Diafanes não estão esperando o sucesso passar. Eles estão correndo atrás, e com muito afinco. Já fizeram três turnês pelos EUA e seguem mostrando um trabalho sólido, experimental e muito interessante. De trás da bateria, Rafael mostra muita competência como baterista e, acima de tudo, como músico. Bom gosto, dedicação e estudo constante estão na base do seu desenvolvimento.

O Diafanes acaba de chegar dos EUA. Como foi a viagem? Como vocês conseguiram isso?
Foi bem legal! Essa foi a terceira vez que fomos para lá, mas de todas, a considero, a mais intensa. Em cerca de 20 dias fizemos 15 shows. Viajamos bastante, tivemos apenas um dia de folga. Passamos por locais que já havíamos tocado anteriormente, como Spartanburg (Carolina do Sul), Asheville (Carolina do Norte), Chicago, Nova York, e o público nesses locais tem aumentado bastante, o que é muito bacana. Tocamos novamente no Cherry Blossom Festival – Festival de cultura japonesa em Washington DC – que foi nosso principal show nos EUA, e a partir dessa data é que foram agendadas as demais. Na verdade fazer turnês desse porte nos exterior não é uma coisa que acontece do dia para noite. Nosso primeiro contato com o publico americano foi há uns cinco anos atrás, através de uma gravadora que tínhamos lá. Infelizmente tivemos que romper o contrato com eles, pelo descumprimento de algumas cláusulas. Mas essa experiência serviu para que nosso primeiro CD fosse lançado lá, e conseguimos também alguma publicidade. Logo após o rompimento, um festival chamado Lollapalooza, um dos maiores dos EUA, abriu inscrições para que bandas independentes concorressem para tocar em um dos dias do festival. Nos inscrevemos e, entre mais de 2000 bandas, ficamos entre as 20 primeiras. Éramos a única banda não americana entre elas. Não conseguimos ganhar o concurso, porém, um booker entrou em contato conosco por ter nos visto no site do festival e quis agendar uma turnê. Ter ido dessa vez nos abriu portas para as vezes futuras, pois fizemos diversos contatos e muita gente passou a conhecer nosso trabalho.

Como foi a recepção do trabalho por lá? E o mercado musical independente?
Foi muito boa. O pessoal compareceu nos shows, compraram todo tipo de mercadoria da banda: CDs, posters, botons, camisetas, etc., nos recepcionaram de braços abertos. Lá existe, de fato, um mercado de música independente. Existem bandas vivendo de musica autoral sem estar vinculadas a nenhuma gravadora. Conheci diversos músicos que viviam de sua própria música. Não davam aula nem tinham outro tipo de trabalho. Simplesmente vivem de gravar álbuns e sair em turnê com sua banda. Umas das coisas que possibilitam esse tipo de mercado é a cultura. O americano é educado, desde criança, a buscar coisas novas, a ir atrás da inovação, de algo diferente. Isso faz com que o público seja mais interessado, que permaneça no show e incentive as bandas, tanto no quesito moral quanto financeiro. Em outras palavras, eles "topam o novo". Vi bandas fazendo shows todos os dias, durante dois meses consecutivos, sem serem de fato "mega-stars". Isso é algo que, para nós no Brasil, é inconcebível.

O som do Diafanes joga com o experimental, buscando formas e harmonias diferentes. Como isso se reflete na sua maneira de tocar bateria?
Reflete no fato de que eu sempre tenho que buscar algo novo também. Procuro sempre ouvir algo que me sugerem, busco coisas novas na internet, estou sempre de olho nas bandas que estão surgindo, instrumentos interessantes, etc. De algum tempo para cá venho trabalhando e aprimorando algumas idéias que tive, como os espelhamentos, coisa que acredito que ainda não foram totalmente incorporadas à bateria. Mas falando da bateria mesmo, quando vou encaixá-la no contexto geral, preciso estar atento ao que cada um está tocando. Essa historia de experimentalismo é bem legal, tem grandes expoentes, como o próprio Mutantes. Porém é preciso ter muita cautela ao experimentar, pra não acabar virando só sons ao acaso. É preciso existir uma coesão entre o que está sendo apresentado de novo e a música em si. Esse é o meu maior trabalho quando toco. Além de buscar novas idéias, preciso fazê-las encaixarem no todo.

Tecnicamente, quais os maiores desafios pra tocar com o Diafanes?
A técnica para mim e algo "pré-música", algo que deve ser estudado antes da música. Existe uma frase que eu sempre digo para meus alunos, que é: você tem que estudar a técnica para esquecê-la. O que quero dizer com isso é que ela tem que estar incorporada, tem que sair naturalmente. Se toco e ainda fico pensando em doubles e paradiddles, há uma forte tendência de que me preocupe demais com isso e acabe esquecendo o principal, que é o como estou soando com o todo. Sempre priorizo a idéia. Uma frase legal, uma levada interessante e um conceito novo valem muito mais. Mesmo assim, ainda estudo técnica todos os dias, menos nos feriados! [risos]
Meu maior desafio com relação ao Diafanes ainda são as musicas étnicas. Sempre que vamos incorporar um novo estilo gasto algum tempo para absorvê-lo. O mais difícil é adquirir a linguagem. Fazer com que aquilo soe como se fosse um cara "especialista" do estilo tocando, entender as nuances e algumas vezes aprender a tocar um instrumento novo, são coisas que para mim, ainda tomam muito tempo e paciência.

E pra acompanhar as experimentações da banda você precisou estudar harmonia?
Na verdade meu estudo em harmonia e anterior ao Diafanes. Antes de conhecer a Lorena, tive aulas com o Ciro Visconti (guitarrista do Diafanes). Tenho aula com ele até hoje, pois mesmo durante essa ultima turnê conversamos bastante sobre harmonia. Além de um grande amigo e parceiro de banda, o Ciro é um grande mestre em harmonia. Sorte minha! [risos] Acredito que, apesar da bateria ser um instrumento muito legal de se tocar, ela gera no baterista um déficit. Como não trabalhamos sempre com as notas convencionais, dó, ré, mi, etc., se nos acomodamos no estudo melódico, não nos habituamos a ouvi-las, e por conseqüência esses sons acabam se tornado menos comuns para nós. E isso é um problema bem sério. Se pensarmos nas propriedades do som, vamos lembrar que uma delas é a altura. Deixá-la de lado é muito ruim. De todas as propriedades, esta é a mais importante. É através dela, e por causa dela, que existe boa parte do sistema de notação musical: claves, pentagramas, acordes, etc. Excluí-la é muito ruim não para o baterista, mas para o músico que o antecede. Por isso, acho que estar em contato com a parte melódica da música, seja através do ensino da percepção ou da teoria, ou até mesmo tocar um instrumento que tenha essas notas, não é só necessário, mas essencial. Me preocupo bastante com isso. E uma coisa bem peculiar no Diafanes é que todos estudamos harmonia tradicional, e não a popular, apesar de não fazermos música erudita.


Você atua em outros trabalhos além do Diafanes? Sim, até o final do ano passado estava com uma banda chamada No Voxx, estilo pop rock. Fizemos diversos shows pelo Brasil no período em que estávamos juntos. Também fomos banda de apoio, em alguns shows, para alguns artistas como Roger (Ultraje a Rigor), Vanessa Oliveira (Ex-idolos/SBT) e Paula Lima. Hoje em dia toco em uma banda de metal chamada Slövo, provavelmente lançaremos um CD entre o final desse ano e inicio do próximo. E na banda de jazz fusion Compress the Jazz. Também continuo atuando como free-lancer, tanto em estúdio, como em gravações.


Saiba mais sobre Rafael em seu MySpace e sobre a banda Diafanes no site.



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