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Baterista, independente, undeground, devotado ao rock’n’roll, em Santos, litoral paulista: ninguém disse que seria fácil. Apesar de todas as improbabilidades, Arthur Von Barbarian é um baterista conhecido, respeitado e requisitado na Baixada Santista. Sua atuação na cena independente é classificada como antológica, tendo gravado alguns dos álbuns mais significativos da cena punk, hardcore e metaleira da região. Mesmo com toda a sua agressividade e precisão na hora de tocar, Arthur é um professor preocupado com a formação de seus alunos e um verdadeiro gentleman da cena independente.
Conte um pouco sobre sua carreira. Você sempre atuou em Santos? Como é a cena por aí, e como você se movimenta nela?
Falar da minha historia é falar um pouco da história da cena independente do rock de Santos nas últimas duas décadas. Participei das principais bandas, tanto do metal underground quanto do punk/hardcore underground. Venho gravando sistematicamente por 23anos com o que há de mais alternativo e significativo no circuito underground litorâneo. Fui o baterista em gravações antológicas como os cultuados discos em vinil do Vulcano, “Antropophagy”, de 1987, “Who are the True”, de 1988, “Rat Race”, de 1991 (este relançado em CD), “Tales From the Black Book”, de 2004, e “Five Skulls and One Chalice”, de 2009. Ainda lá atrás, em 1988, gravei um disco que é considerado por estudiosos como um divisor de águas no metal, o popular “Toxin Difusion”, do glorioso Psychic Possessor, banda que introduziu o estilo crossover no cenário nacional. Já nos anos 90, e ainda em vinil, lancei o disco de cabeceira de muitos fãs do hardcore nacional, o badalado “Good Times”, do não menos cultuado Safari Hamburgers, banda que é o núcleo do Garage Fuzz. Também nos anos 90 montei um trio de rock progressivo em que finalmente podia mostrar toda a categoria e informação que adquiri sobre o instrumento. Esse trio se chamava Merlin e foi justamente aí que comecei a ser requisitado para workshops e aulas. Já no novo milênio trabalhei com bandas de extremo bom gosto, não importando o estilo e, em 2008 e 2009, lancei quatro CDs de estilos diferentes, mas com uma coisa em comum: a independência. Todos estes trabalhos são lançados de forma independente. Para mim, ser independente significa ser artista na sua forma plena, sem contaminações. As bandas com que lancei estes CDs são: Fuck Family, Vulcano, Carnal Desire e Bombax.
Aqui em Santos, a cena sempre foi difícil e heróica, dependendo exclusivamente da boa vontade dos próprios músicos, que cavavam espaços para apresentações em qualquer lugar que se mostrasse disponível para esse fim. O publico sempre existiu, e muito heterogêneo. Porém, questionador e de qualidade, sempre prestigiou da melhor maneira possível. Nos anos 80 e 90 a prefeitura disponibilizava um circo em dois lugares-chave da cidade, onde os jovens talentos podiam dar vazão à sua arte, era chamado de Circo Marinho. Por lá passaram muitos artistas que hoje são referência nacional. Hoje, temos um espaço junto ao teatro municipal e só! Ainda assim, pra poder tocar, tem aquela burocracia toda e a famosa ordem dos músicos para atravancar tudo. Creio que está bem difícil mostrar novos talentos na baixada nos dias de hoje, e a solução encontrada por todos foi sair para tocar covers em bares e se limitar a um repertorio ditado pelo lixo que impregna as rádios de hoje em dia.
O Fuck Family está rolando. Como é o som da banda? O que esse som exige do seu drumming?
O Fuck Family surgiu quando fui requisitado para fazer um workshop de batera para uma loja. Como estava na entresafra de gravações, resolvi abordar minha técnica e compus quatro faixas com meus amigos para ilustrar o que mostraria no workshop. Sempre fui do underground e do som pesado, mas sempre achei que, pra ser um bom baterista, você tem que tirar som de um kit mínimo: caixa, bumbo, tom e surdo. Foi isso que fiz e o resultado acabou agradando muito o pessoal, que me cobrou mais músicas naquele estilo. Resolvemos fechar um CD com treze faixas e o resultado foi álbum “Fuck the noise”.
Nesse trabalho o som é pesado, porém com muita informação na parte rítmica, em que abordo paradiddles, flams, rulos e simulações de pedal duplo, que são a grande sacada do CD.
Quando comecei a tocar, não tinha pedal duplo pra vender e eu não tinha grana pra comprar outro bumbo, então adaptei algumas técnicas pra imitar o som do pedal duplo. Como tocava no Vulcano, que era muito rápido, acabei desenvolvendo velocidade nessa técnica, e é o que chama mais atenção no meu estilo.
Estamos fazendo um segundo CD (ou seja lá o que for a mídia que agrupe um punhado de musicas gravadas sob um conceito só [risos]) e pretendemos divulgar esse novo trabalho ainda em 2010.
Quais outros trabalhos você vem desenvolvendo atualmente?
Venho desenvolvendo um trabalho para a Cruz Verde, que cuida de crianças com paralisia cerebral grave. Esse trabalho consiste no estímulo, tanto no âmbito motor como lúdico, para melhorar a qualidade de vida dessas crianças. E toco em três bandas cover pra pagar minhas contas! [Risos] Creedence Cover (travelling band), Aly na Skyna (rock clássico variado) e Os Pirata (rock clássico variado). Só alegria!
E como professor, o que você busca passar para seus alunos?
Procuro mostrar que, antes de querer ser um ás com as baquetas na mão, a pessoa tem que ter consciência de que a bateria toca musica, e que musica é uma forma de arte. E que, portanto, antes de ser um instrumentista, a pessoa tem que saber o que a arte e um artista representam para a sociedade. Qual é o verdadeiro peso de ser um artista e de seus deveres e prazeres. Feito isso, o resto é muito suor e talento pra botar em pratica.
Você opta sempre por atuar sempre de maneira independente. Por quê?
O papel do artista é trazer cultura, questionamento, inconformidade e autonomia. Creio que um país livre e desenvolvido é um país de cultura forte, independente e democrático em todos os sentidos!