
![]()
Se a versatilidade é o desafio do baterista contemporâneo, Bruno Balan é um dos que estão no caminho certo, indiscutivelmente. É só checar sua agenda de shows: ele toca rock com muita propriedade na banda que acompanha a cantora Joyce Santos, música brasileira e jazz latino com Simone Pelissari, toca ao vivo em espetáculos de teatro, dá aulas e pesquisa ritmos tradicionais brasileiros e sua adaptação à bateria. “Eu brinco dizendo que tenho um irmão gêmeo”, diz ele. A verdade é que muitas horas de trabalho e dedicação apaixonada formam a base deste grande músico.
Você toca na banda da cantora Joice Santos, destaque da MTV. Como é realizar esse trabalho?
Vem sendo muito satisfatório e produtivo. Ela já tem muitos fãs acompanhando seu trabalho e está sendo destaque em muitas publicações, como revistas e sites. No trabalho, a Joice é uma cantora que sabe muito bem o que quer, desde a parte musical até o lance de marketing e divulgação. Isso agiliza o trabalho e os resultados positivos. Fiz o teste de baterista para entrar na banda que a acompanha no começo de 2009, passei e desde então iniciamos os shows de lançamento de seu primeiro CD, que já estava gravado. Participei da gravação do vídeo clipe da música de trabalho "Quem Perdeu Foi Você", que entrou inclusive na votação para o Top 10 da MTV, e tocamos em janeiro na maior feira de Internet do país, no palco do Myspace, onde ela também é destaque. É claro que tudo isso aumenta a cobrança sobre a performance dos músicos, mas enxergamos isso de forma positiva e estamos prontos para os desafios que virão.
Diametralmente oposto, você também acompanha Simone Pelissari. E esse trabalho, como é?
Eu brinco dizendo que tenho um irmão gêmeo, pois são dois trabalhos muito diferentes na concepção de arranjos, dinâmicas e fraseados rítmicos. Não posso sair da bateria rocker e pesada de Joice e fazer um trabalho com a Simone na mesma pegada. O som dela flerta com os ritmos brasileiros (principalmente o samba) e latin jazz, mas é muito sutil e delicado. Fora isso, a Simone não atua com um único formato de show: a formação pode ser guitarra, baixo, teclado e bateria; ou então violão, clarinete e percussão. Tenho que me virar! Atuamos em bares e casas de show, além de lançarmos seu primeiro CD "Segredo" em todas as livrarias de São Paulo.
Temos visto muitas pesquisas sobre os ritmos tradicionais brasileiros e sua adaptação para a bateria, inclusive a sua. Os resultados não são muito particulares de cada músico? Como conciliar estes resultados no futuro?
Essa é uma grande paixão que tenho. Estudo as grades de percussão de ritmos afro-brasileiros como Ijexá, Samba Barravento, Nagô e Jongo, e faço as adaptações necessárias para que o ritmo soe completo também na bateria. É verdade que é uma visão particular minha, mas há elementos marcantes de cada ritmo que devem ser respeitadas. São ritmos tradicionais, com uma origem em comum no continente africano, que data de muitos séculos. Então, como pesquisador, tenho que ter consciência de que só o fato de adaptar esses ritmos para a bateria já é uma inovação, pois muita coisa mudou na música de lá pra cá. Tenho apenas que ter cuidado para não descaracterizar nada, sem a pretensão de inventar a roda, mas apenas dar continuidade a um caminho. Bateras como Nenê (Realcino Lima), Simone Soul e Neném (Esdra Ferreira) são grandes influências nesse sentido. Assim como o aprendizado que tive com o percussionista Pithy e com o mestre Dinho Gonçalves, que me passou as primeiras orientações que tive a respeito desse assunto e, graças a seus valiosos ensinamentos, é o maior responsável por eu estar atuando no mercado de trabalho. Com relação ao futuro dessas pesquisas, excelentes grupos utilizando esses ritmos na bateria estão surgindo e acredito que serão eles que apontarão as diretrizes a serem seguidas, pois não é a música no papel que influencia o mercado de música popular e sim aquela que está nas ruas, palcos, CDs, DVDs, etc. Tenho um projeto pronto para montar um grupo aplicando de forma musical minhas pesquisas mas, como as atividades de sideman me inviabilizam a fazer isso hoje, continuo com as experimentações e estudos, amadurecendo as idéias.
Você é bacharelado em bateria pela FAAM. Como a formação acadêmica mudou sua maneira de tocar e trabalhar?
Tive dois grandes bateristas como professores: Sergio Gomes e Alexandre Damasceno. Só o fato de ter essa oportunidade já foi muito importante para minha formação. Mas o diferencial da faculdade de música está em você estudar também fora da ótica da bateria. Pelo menos no meu caso, eu nunca havia feito antes: aulas de harmonia, arranjo, história da música, aprendi a tocar um pouco de piano e percussão erudita, não sei cantar até hoje, mas tive aulas de coral! E uma coisa interessante, pelo que também sou grato: estudar música fora da ótica da música, de uma maneira filosófica. Graças a Ricardo Rizek (in memoriam), uma das pessoas mais geniais que conheci, tivemos, por exemplo, aulas de análise de filmes, que de alguma forma que não sei explicar foi muito importante para minha formação. Os ensinamentos e associações do Rizek eram únicas. Tudo isso fortaleceu minhas idéias, me deu argumentos e novo posicionamento para tocar melhor em grupo, para dar aulas e também ajudou muito a compreender, sem romantismos, o que é o mercado de trabalho musical e como sobreviver nele.
Essa versatilidade é o desafio do músico brasileiro contemporâneo. Como você a alcançou? O que pode sugerir para os que querem seguir este caminho?
Esse é um desafio que vivencio diariamente e nunca acabará. É claro que ter uma banda de sucesso com uma agenda de shows lotada é o desejo da maioria dos músicos, mas esse é um fato que não depende exclusivamente da nossa vontade. Sendo assim, o que busco na minha carreira são conquistas concretas, como por exemplo estar estudando e me atualizando sempre, ouvir muita música, ir a shows de grandes músicos e tocar em bandas de todos os estilos musicais possíveis, sem nenhum tipo de preconceito. Isso vale pra mim tanto na bateria quanto na percussão. Entendo que a versatilidade só abre caminhos e mais oportunidades de trabalho, da mesma forma como terá vantagem no mercado o engenheiro que falar inglês e espanhol, sabe? O único perigo da versatilidade é não saber se posicionar. Temos que aprender a reconhecer nossos pontos fortes e fracos. Exibir o que temos de melhor e aperfeiçoar nossas deficiências. Ser versátil não é sair por aí tocando "mais ou menos" qualquer estilo que aparecer. Ser versátil é tocar de maneira irrepreensível com Frank Zappa, Sting, Richard Bona, Djavan e Megadeth, como faz Vinnie Colaiuta! São caras como esse que me fazem enxergar que temos que estudar muito todos os dias e que o trabalho favorece a sorte.