The Jacuzzi Interview


No dia 31 de outubro fui ao Conservatório Souza Lima gravar a entrevista que você assiste esta quinzena, com Azael Rodrigues. Durante uma pausa na gravação, o Plauto Covre, um grande amigo, também baterista e roadie profissional, me ligou. Estava trabalhando pro Kreator, que tocava aquele dia em São Paulo, e o batera que acompanhava a banda era simplesmente Marco Minnemann. Havia uma possibilidade de gravarmos uma matéria, mas tinha que ser no camarim, um pouco antes do show. Conseguiríamos gravar a entrevista, mas dificilmente o solo e a dica.

Cheguei ao camarim e fui apresentado pelo Plauto, que já havia falado de mim e do site. Marco é um cara elétrico, daqueles que não param um segundo. Está sempre com as baquetas nas mãos, batucando no que tem pela frente. E também sorridente como um menino com seu brinquedo favorito.

Começamos a procurar um lugar onde fazer a entrevista. No camarim não seria possível. Além dos outros integrantes da banda, o Exodus estava no palco, tocando, e a porta estava aberta. Nunca captaríamos a voz decentemente. Ele indicou o banheiro, que é amplo e tem duas portas, e lá no fundo havia uma banheira de hidromassagem. Marco imediatamente entrou na banheira e disse: “It’s here! This will be the jacuzzi interview!” (“É aqui! A entrevista na banheira!”). Além da alegria, sua generosidade também é impressionante. Ele não se nega a responder nenhuma pergunta, nem a mostrar nada. É uma pena termos gravado a entrevista na banheira... Se ele estivesse à bateria, seria um arraso!

Você tem uma abordagem muito interessante da bateria. No que pensa quando senta atrás do kit?
Sabe a palavra “moderno”? Eu não me deixo levar por ela. Assim que você faz alguma coisa, ela pode soar “nova” pra algumas pessoas, mas “moderno” é algo que põe uma data sobre o que fiz. Sempre quis fazer algo desligado de uma certo período, que eu pudesse trabalhar e trazer a composição praquela música. O primeiro livro que estudei foi o “Stick Control”, de George Lawrence Stone. Eu o estudei de todas as formas possíveis e depois comecei a modificá-lo. Por exemplo, tocando com três membros do corpo e solando com o último, o que é muito do que o Gary Chester ensinou com seu livro. Basicamente eu tinha idéias na cabeça, de como queria que as coisas soassem na bateria. Por isso tenho três chimbais na bateria, de forma que possa fazer rudimentos com eles. Sempre comecei ouvindo os sons em minha cabeça e depois os trazia pra a bateria. Comecei a tocar teclado quando era pequeno, e depois passei pra guitarra, que ainda toco. Pra se bem honesto, eu quero trazer idéias pra música através da bateria, ou qualquer instrumento que toque. É o que faço! Mas é um trabalho duro. Estou sempre tocando, nunca sou preguiçoso.

Então você considera importante que o baterista aprenda harmonia?
Seria bom se os bateristas se interessassem por harmonia pra ouvir melhor o que os outros músicos tocam, saber que quando eles passam por uma certa harmona é quando o solo acaba, e situações como essas. É importante, ajuda com a dinâmica também.

O que você faz na bateria exige muito estudo. Você tem uma agenda de estudo?
Sim, e não... Mas deve ser sim [risos]. Eu tento, todos os dias, trabalhar com um lado. Por exemplo, mantenho uma levada simples com o pé esquerdo e a mão direita, e faço sextinas com o pé direito e a mão esquerda, e depois faço as sextinas com toques duplos, com paradiddles, com flam triplets. E no dia seguinte eu mudo o lado que trabalho. Coisas básicas, pra aquecer. Então começo a aplicar idéias mais difíceis, como executar ratamacues com um lado. E então faço um groove mantendo algum tipo de ostinato e solando com outros membros. Criando algo, e depois adicionando uma idéia diferente sobre aquilo. A mnecânica é mais ou menos essa: comece com um ostinato qualquer, uma clave de “son” no pé esquerdo, por exemplo. Quando você conseguir executar isso e conversar ao mesmo tempo, confortavelmente, está bom o suficiente pra adicionar outro movimento. Mas precisa soar musical. Se faço algo que não soa musical, eu paro e vou atrás de outra idéia. Daí adiciono uma clave diferente com o pé direito, e vou pelo mesmo processo, e daí uma condução com a mão direita. E pra completar, a mão esquerda sola. Há inúmeras possibilidades. Só me certifico de que soa bem.

O que você está fazendo com o Kreator?
O vocalista Mille Petrozza é um amigo de muito tempo, nos conhecemos há vinte anos, mas eu nunca tinha ouvido as músicas do Kreator. Ele me ligou exatamente duas semanas antes da turnê começar e perguntou se eu poderia fazer os shows. Eu estava em turnê com o UK, e vamos continuar a turnê quando esta acabar. Estávamos no carro Simon Phillips, pois há dois bateristas na banda, Eddie Jobson e Trey Gunn, e Mille me mandou as músicas, e comecei a ler os nomes pro pessoal: “Hordes of chaos”, “Phobia”, “Pleasure to kill”, “Destroy what destroys you”, “Tormentor”, e os caras ficavam falando “uau, olha isso!”, e foi muito divertido. Mas assim que ouvi as músicas, eu as levei muito a sério. Minhas bandas favoritas são Cream, Led Zeppelin, The Police, mas cresci ouvindo Slayer, Iron Maiden, Judas Priest, Metallica, Meshuga, e Frank Zappa é uma grande influência, então tive acesso a essa área. Adoro metal e adoro tocar metal, então posso soar autêntico. Está sendo uma das melhores tours que já fiz, as vezes é difícil viajar, mas a música é diversão o tempo todo. Fizemos alguns festivais, e parece que vem mais trabalho por aí.

E sobre os outros grupos com que você trabalha?
Tenho meu grupo solo, que leva meu nome, temos muitos CDs lançados – chequem meu site! Também toco no UK e no UKZ, que são projetos diferentes sobre a mesma base. Somos Eddie Jobson e eu, e convidamos outros músicos pra fazer algumas coisas. Por exemplo, Greg Howe nas guitarras, algumas vezes temos Trey Gunn no baixo, outras Tony Levin, ou John Wetton. É como um trabalho colaborativo entre os músicos, e algo em que me concentro bastante. E estou sempre fazendo gravações. Sempre tenho algo pra fazer.

http://marcominnemann.com




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