
![]()
Vinícius Lordelos é um baterista de Londrina (PR) e trabalha um bocado por lá. Atua com bandas, acompanha artistas e adora a música latina, tanto que a banda de que mais gosta de trabalhar é o Pepe Loco. Além dela, também atua no Coral Ébano. E veio mostrar sua musicalidade no Batuka! 2009.
Você foi finalista do Batuka! Masters 2009. O que o levou ao concurso? Como foram as etapas? E a participação na final?
Eu vi a divulgação do evento e achei muito bom que nesse ano ele aconteceria, já estava até planejando em ir apenas para assistir. Acabei dando uma olhada no regulamento, para ver como funcionava caso eu quisesse participar, são muitos pré-requisitos e já estava quase fechando as inscrições, então resolvi deixar para próxima. Daí um dia, sem mais nem menos, comecei a conversar com meu ex-professor, que me incentivou a participar, as inscrições haviam prorrogado, porém faltava uma semana para o prazo de envio do material. Me preparei o mais rápido que pude e convoquei o pessoal para gravar o vídeo. Essa era só a primeira etapa! No vídeo desse ano tivemos que apresentar dois minutos de cada ritmo proposto, sendo quatro compassos de groove seguidos de quatro compassos de improviso. Eram os seguintes ritmos: jazz, afro-cubano em 6/8 e um ritmo de livre escolha em 7/8. O próximo requisito era tocar um minuto, sem improviso, de cada um desses ritmos: baião, maracatu, frevo e samba. E o último era fazer um solo livre de dois minutos. Esse material completo dá mais ou menos doze minutos. Meu material chegou ao IBVF no último dia do prazo para fechamento das inscrições. Após alguns dias a Vera me ligou informando que fui aceito e que deveria preparar um play along e um solo para tocar no dia da apresentação e que em breve ela enviaria a música de confronto. Preparei meu solo e uma música chamada “On Fire”, do pianista dominicano Michel Camilo. Deu muito trabalho gravar um play along dessa música, principalmente por conta do piano e do andamento rápido. Resolvi participar do Batuka defendendo minha identidade, tanto meu solo quanto minha música, foram baseados na clave e nos ritmos latinos. A música de confronto, escolhida pela Vera, foi espetacular! Era “Passo de Anjo”, da Spok Frevo Orquestra.
Enfim, chegou o dia. A final é a melhor parte da experiência! Conheci os outros finalistas, o auditório, o Clayton Cameron e o Zoro, além dos outros grandes músicos que compunham a banca. Além disso, o tratamento que a Vera disponibilizou para os finalistas foi demais!
Os minutos de maior nervosismo foram aqueles em que ficamos os quatro finalistas esperando o momento de subir no palco. É muita pressão! Afinal, subir no palco sozinho não é fácil. Para mim isso durou até eu começar a tocar minha primeira música, em seguida já engrenávamos no solo, terminando com a música de confronto.
De onde vem seu gosto pela música latina? E o que é principal que o baterista estude para tocar o estilo?
Uma vez ouvi uma frase de Villa-Lobos em que ele falava que devemos tocar aquele tipo de música que nos dá arrepios. E é exatamente isso que sinto com a música latina! Percebo que os estilos que me dão mais prazer em ouvir e tocar são aqueles que têm uma ligação mais forte com as raízes africanas. Gosto muito de ritmos bem percussivos.
A maior parte do tempo estou escutando e tocando música latina. Realmente gosto muito! Me realizo bastante tocando com o Pepe Loco, meu grupo de salsa aqui de Londrina, pois é onde aplico tudo aquilo que ouço e estudo, e o mais interessante é que isso ocorre por parte dos outros integrantes do grupo também, principalmente do pianista, o paraguaio José Salinas.
Acredito que o principal para um baterista estudar o estilo é ter conhecimento da maioria dos ritmos. Ocorre muito o erro dos músicos limitarem o estilo a uma única palavra: salsa. Salsa seria uma junção de todos os ritmos, mas deve se conhecer aquilo que se está tocando. O ritmo que geralmente é tocado pela maioria dos bateristas é o songo, que foi passado para a bateria pelo grande baterista e percussionista José Luis Quintana, o Changuito. Além do songo, devemos conhecer pelo menos os principais: son montuno, mambo, rumba (guaguancó), cha-cha-chá, mozambique e merengue. Outro fator importante é ter conhecimento dos fundamentos: as claves, a cascara, o mambo Bell e as linhas dos instrumentos de percussão que compõem os ritmos (congas, bongô, timbales, guiro, etc.).
Como as origens são percussivas, se quisermos nos aproximar da maneira como os ritmos são tocados originalmente devemos receber influência de percussionistas e até aprender alguns dos instrumentos característicos.
Outro fator que julgo como um dos mais importantes, que aprendi primeiramente com Daniel Oliveira, é livrar-se dos padrões. A maioria dos bateristas, quando aprendem a tocar salsa, principalmente com a clave do pé esquerdo, viciam-se nos padrões de bumbo, o que limita muito o estilo e o baterista. É importante aprender os padrões, mas depois de aprendidos, devemos realizar um estudo, que é o mais árduo, a fim de nos livrarmos deles e abrir espaço para o improviso dos pés e das linhas de congas e timbales que geralmente são feitas na caixa e nos tons.
Há forte influência percussiva na sua maneira de tocar. Como isso se traduz na sua música?
O interessante da música latina, assim como a brasileira, é que os ritmos foram criados para percussão, onde mais de um percussionista tocava ao mesmo tempo, e quando resolveram passar isso para bateria fizeram de modo a imitar três ou quatro percussionistas tocando ao mesmo tempo. A bateria em si, quando toca um ritmo de origem percussiva, já descaracteriza um pouco o estilo. Se quisermos tocar de maneira mais parecida com a original devemos ter forte influência percussiva e, como disse antes, até aprender a tocar alguns dos instrumentos característicos. Vale ressaltar que isso é apenas uma questão de concepção, cada baterista tem a sua! Alguns preferem soar como bateristas mesmo! Outros preferem se aproximar mais da maneira original. Vai do gosto de cada um. Gosto muito e recebo influências de vários bateristas que se encaixam nas duas maneiras de pensar, e nunca me esqueço de que a bateria é um instrumento americano criado para o jazz, independente de outros instrumentos de percussão. A influência da percussão se traduz na minha forma de tocar dessa maneira, tentando soar como na raiz e me focando muito mais ao groove em si, porém NUNCA negligenciando os aspectos técnicos do instrumento, aos quais também sou bem ligado.
Você também trabalha com o Coral Ébano. Como é esse trabalho? E quais foram os aspectos que o colocaram nesse time?
O Coral Ébano é um grupo que funciona como uma empresa. São 60 músicos recrutados em sua formação, que varia dentro dessas proporções, podendo então ser contratados de 6 a 60 músicos para um determinado evento. Fazemos casamentos, em especial a cerimônia. Esses grupos são até comuns por aqui, porém acredito que o Coral Ébano é um dos maiores do Brasil no ramo. Atendemos não só Londrina, mas também toda a região do norte do Paraná e sul de São Paulo. A administração do grupo é muito boa e atende uma demanda bem grande. As vezes ocorrem três casamentos no mesmo horário, e o grupo precisa ter um bom número de músicos para atendê-los ao mesmo tempo. Algumas vezes são contratados, em um único casamento, 50 músicos ou mais. São os melhores! A formação é orquestral e quase não cabemos em algumas igrejas.
O naipe de percussão é composto por cinco percussionistas. O repertório varia entre popular e erudito. O popular, em especial, geralmente é composto de músicas gospel, com raízes na música negra americana como o Soul e o R&B. Entrei nesse grupo por influência do pianista Mateus Gonsales, que também estudou no conservatório de Tatuí e foi quem gravou o piano da música “On Fire”, do Michel Camilo, que enviei para o Batuka. Além de grande pianista ele é um grande amigo com quem gosto muito de trabalhar.
O grupo foi responsável por grande parte do meu crescimento musical. Aprendi vários macetes, além de solidificar meu andamento em função do acompanhamento de um grande número de músicos ao mesmo tempo, e algumas coisinhas da música erudita, como os ralentandos, que geralmente são mais difíceis para nós bateristas.