Bateria e diversidade: um desafio


Se a diversidade é a alternativa para a estagnação, o baterista Rogério Bastos é um dos que não deixam sua arte parar. Desde antes de se formar na UNICAMP, em 1996, ele já colocava sua música para rodar, já tendo atuado com Tom Zé e Ney Matogrosso, entre muitos outros. Hoje ele põe sua versatilidade à prova com trabalhos bem diversificados: o rock de sua banda O Grito, a MPB de Vanessa Bumagny e o trip hop de Marcela Bellas.

Quais são as exigências às quais você precisa responder nas gigs de Vanessa Bumagny, Marcela Bellas e com sua banda O Grito?
Cada trabalho tem uma exigência específica, que se relaciona com o tipo de som que cada um tem. Com a Vanessa, o trabalho é voltado para a MPB e tenho que valorizar a delicadeza de sua voz e de suas composições. Toco com volume baixo e tento explorar as texturas que o meu set up diferente oferece. Ela é extremamente exigente com o que todos da banda estão tocando e cheguei a demorar um mês, na época dos ensaios, para chegar numa solução de levada para uma música.
Com a Marcela Bellas tenho que me adaptar ao universo do trip hop e suas derivações. O som tem uma sujeira interessante, com ruídos e arranjos que vão se construindo nos shows. Gosto muito de suas composições.
No Grito o som tem a energia e a viltalidade do rock como uma maneira de tocar, mesmo que em algum momento estejamos tocando outros estilos. Preciso tocar bem alto e estar bem fisicamente para dar conta do recado.

Com a Vanessa você usa um kit bem diferente. Fale sobre ele, e sobre os motivos que te fizeram montar a bateria daquela maneira.
Tudo se iniciou com o convite para tocar com ela. Seu disco foi gravado basicamente só com percussão, com poucas faixas sendo usada a bateria como nós conhecemos (Mauro Sanches e Guilherme Kastrup gravaram o disco). Ouvi o disco e aceitei o desafio, apesar de não ser percussionista. Tive que tentar reproduzir os sons que ouvia com o que tinha à mão. Os graves não vinham de bumbos, e sim de um cajon ou de um tambor com pele animal. Daí adaptei um surdo de 16”, que tem um grave mais macio, como bumbo. As conduções eram quase todas com vassourinhas tocadas em peças de metal. Optei por um butijão de ar condicionado de carro que me foi presenteado pelo Loop B e também por um chimbau com um china em baixo e um splash rachado em cima. Uso também um tamborim, uma caixa, um outro surdo e alguns pratos. Solto ainda alguns sons do disco por um laptop com Pro Tools.

Você gravou o Álbum de Marcela Bellas. Como foram as gravações?
Gravamos as baterias do disco no Estúdio Baticum. O técnico Rafael Silvestrini, junto com produtor Rovilson Pascoal, captaram a bateria com microfones posicionados longe, com a intenção de sobressair o som da ressonância na sala. Tínhamos microfones perto também. Na hora da gravação, eu só tinha uma guia com voz, guitarra e um loop, que não era exatamente o que eu teria que tocar. Fomos decidindo juntos as linhas da bateria e elas acabaram sendo a base dos arranjos do disco. Fiquei contente com o resultado e ele pode ser conferido no site da Marcela (www.marcelabellas.com.br).

O Grito está em pré-produção de um novo álbum, com releituras de clássicos da musica brasileira do ponto de vista da banda.
Nós, do Grito, sempre gostamos de fazer releituras e tivemos essa idéia de pegar músicas que são clássicos e trazê-las para um universo contemporâneo. Queremos com isso chamar atenção dos mais jovens para a qualidade dessas composições e assim promover o interesse por elas e por seus compositores e intérpretes. No nosso jeito de arranjar, experimentamos levadas diferentes, rearmonizações, testamos riffs e temos como principal objetivo  potencializar o sentido da letra e da melodia. Temos uma versão ainda demo de “Fita Amarela”, de Noel Rosa, no www.myspace.com/ogrito.

Você também é produtor musical e está trabalhando no novo álbum de Dan Nakagawa.
O Dan é um excelente compositor pop. O Ney Matogrosso gravou recentemente uma música dele chamada “Um pouco de Calor”. Estou co-produzindo o disco e minha função é contribuir para dar uma cara ao disco em termos de arranjo, instrumentação e concepção. Acredito na produção mais participativa do que naquela em que o produtor decide tudo e o disco fica com a cara dele, e não do artista.

Você é graduado em música pela UNICAMP. Qual a importância atribui à faculdade para o músico?
Cada músico tem que achar o que é mais importante para si, eu só posso dizer que, para mim, a faculdade foi bem importante. Num único lugar pude ter contato com os vários ramos da música e conhecer pessoas (músicos e não músicos) e trocar experiências. Acho, ainda, que me deu uma visão mais ampla da música e da arte como um todo e me ajudou também no processo de dar aulas. Recentemente fui convidado a dar aula numa universidade e, obviamente, se não tivesse curso superior, isso não seria possível. Todo esforço para ampliar a área de atuação é válido, já que não é simples viver de música.


Conheça o trabalho de Rogério Bastos: www.myspace.com/rogeriobastos e www.bandaogrito.com

 


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