Técnica pra quê?

por André Carvalho


Imagine o ser humano, na aurora de sua existência, imitando os ritmos da natureza – o ciclo das estações do ano, a sucessão de dias e noites, o ritmo da água corrente, o pulsar de seu próprio coração – e criando máquinas que funcionam ritmicamente, como moinhos e motores.

Conforme a humanidade evolui, aumenta a velocidade de funcionamento de suas máquinas. Do carro de boi à bicicleta, ao trem a vapor, ao automóvel, ao avião, à internet. E a técnica necessária para realizar as coisas em velocidades cada vez maiores também precisa evoluir. Acredito que um sujeito com pouco estudo seja capaz de construir uma carroça, mas fazer um computador que possa ser conectato à internet exige um bocado de estudo.

É claro que estou fazendo uma metáfora com a música. Começamos imitando os sons e ritmos da natureza e, conforme nossa música evoluiu para a expressão de sentimentos mais subjetivos ou realidades mais intensas, demandou mais desenvolvimento técnico. Essa reflexão me ocorreu em 2004, quando entrevistei o baterista Kuki Stolarski. Ele me disse que gosta de imitar uma máquina quando toca: “É a máquina que imita o homem, que imita a máquina, que imita o homem...”.

Vivemos uma era em que cada vez mais tentamos fazer música como se fôssemos máquinas (sob influências e circustâncias sobre as quais posso escrever em outro artigo). Observe os bateristas mais destacados de nossos dias: Jojo Mayer, Johnny Rabb, Aquiles Priester, Marco Minnemann; e os trabalhos com os quais temos nos envolvido cada vez mais, tocando com programações e loops.

Tudo isso aponta para um aspecto do belo, para as maravilhas que o homem é capaz de criar com sua inteligência e imaginação; a possibilidade de transportar, fisicamente ou não, a lugares nunca antes imaginados; a rapidez e praticidade de que dispomos hoje.

Mas, voltando ao início, você já andou de carro de boi? Já sentiu o balanço suave, impreciso, surpreendente das rodas mal acabadas, enquanto observava a tarde passar, sentindo o calor e a brisa, os odores e as cores, os sons ora suaves, ora bruscos? Se você é um bicho urbano, como eu, certamente não deve ter tido esta experiência. Mas tente ouvir as variações da voz de Milton Nascimento, em especial nos álbuns “Minas” (de 1975) e “Geraes” (de 1976), e deixe-se levar pela emoção que ele transmite, cantando de cima de seu carro de boi, mas ainda assim voando nas asas da PanAm.

(Não pode faltar o detalhe de baterista: quem gravou estes álbuns com Milton foi Robertinho Silva, em performances matadoras. Preste atenção, por exemplo, na complexa levada de “Ponta de Areia”, cheia de compassos quebrados.)

Dirá você: então vais malhar os bateristas técnicos para defender bateristas toscos que tocam “com emoção”, com aquela tal “musicalidade inata”, e sei lá mais o quê? Ou que abandonemos todo o desenvolvimento que alcançamos até hoje em prol de voltar às raízes, revisitar nossas origens, e toda essa balela?

Não vou. Por que não posso, e por que não quero. Também não vou gastar muito tempo falando de novo sobre aprender a equilibrar técnica e musicalidade, a tocar para a música e etc. Para ficar bem claro, e de uma vez por todas: técnica é como camisinha – é melhor ter e não precisar do que precisar e não ter.

O passo-à-frente nessa história é o seguinte: não basta ter técnica e aprender a usá-la, se você não tiver nada a transmitir com essa técnica toda. Afinal, para que o homem desenvolveu algo como internet e telefonia celular? Não foi para transmitir idéias e sentimentos, contar algo, receber notícias? E se não houvesse nada a transmitir, teríamos realmente chegado a esse nível tecnológico?

Para transmitir alguma coisa, e para que toda esta técnica que desenvolvemos e estudamos faça sentido, é necessário que tenhamos algo sobre o que falar em nossa música. Uma emoção a transmitir, uma história a contar, um sentimento a explorar, alguma reflexão relevante.

O grande baterista e professor Alaor Neves diz que devemos “colocar o coração na ponta das baquetas”. Usar nossos sentimentos na hora em que tocamos. Vai tocar uma balada romântica? Pense na namorada. Vai mandar um rock nervoso? Lembre do político que construiu um castelo com dinheiro do contribuinte. Vai fazer uma música dançante? Lembre de quando você dança, e transmita aquele bem-estar com as baquetas.

Para transmitir qualquer tipo de emoção, é preciso que você a tenha dentro de si, que tenha vivido essa emoção. Se você nunca se emocionou antes, como pode emocionar outra pessoa? Se nunca ficou nervoso a ponto de sair chutando cadeiras, como pode transmitir essa fúria? Se nunca dançou antes, como pode fazer outra pessoa dançar com sua música?

Ainda hoje nossas referências são as músicas das décadas de 1960 ou 70, mas aqueles músicos não eram melhores ou mais técnicos do que somos hoje. Ele só tinham mais idéias, sentimentos e conflitos a transmitir com sua música. E de onde eles tiravam idéias, sentimentos, conflitos?

Vamos lembrar que, naqueles tempos, a sociedade era menos urbana, se trancava menos. Perguntem a seus pais: eles brincavam na rua ou nos quintais, se metiam nas matas próximas só pela aventura, pela beleza do que podiam encontrar e, acima de tudo, não estavam muito preocupados em encontrar com o desconhecido.

Já não vivemos mais assim: temos medo de tudo!

Andar pela cidade é perigoso. Brincar na terra pode trazer doenças, por que há bichos, sujeira (como se nossos pais não tivessem comido aqueles tatuzinhos de jardim quando eram crianças...). Trânsito, burocracia, pressa, estresse. Muita gente em todo lugar, somos muito mais numerosos e mais aglomerados, não temos tempo de ficar sozinhos nem por um minuto.

Há muito barulho e luzes de propaganda, de carros, de obras, de eletro-domésticos, muitas palavras, não conseguimos mais ver ou ouvir a nós mesmos. Não conseguimos mais ouvir a música que toca dentro de nós mesmos.

Há muito o que fazer, trabalhar, estudar coisas práticas, cursos, e temos que fazer tudo isso para sermos competitivos, ou ficamos fora do mercado de trabalho. Não temos mais tempo para ler algo tranquila e despreocupadamente, ficar com nossos próprios pensamentos, refletir.

E é possível viver sem passar por estas situações todas hoje em dia? Parece que não. Nossa sociedade é assim e temos que aprender a viver nela.

Nada, no entanto, nos impede de tentar. Guarde quinze minutos do dia para si mesmo, para ler, ou olhe um pôr-de-sol por entre os prédios, ou perca alguns minutos conversando com um desconhecido, ou observe um cão vira-lata pela rua, ou simplesmente reflita (“pensar na morte da cabrita”, como dizia minha avó). São coisas simples que nos ajudam a desenvolver a sensibilidade necessária para transmitir emoções.

Nosso modo de vida também nos faz experimentar sensações e emoções (boas e ruins), que também podem ser transformadas em música. O baixista Jaco Pastorius dizia que tudo é música, até o barulho do trânsito. Basta conseguir transformar as sensações que recebemos do mundo em música, dentro de nós.

Viver emoções e refletir sobre as idéias que você quer transmitir gerará assunto, histórias para contar, sentimentos. Estudar a técnica do instrumento e teoria musical serão as ferramentas para transmitir aquelas idéias. Juntar as duas coisas nos dá a capacidade de saber quando colocar mais ou menos notas, quando deixar soar o silêncio ou não, e etc. É essa capacidade que torna a música interessante a ponto de ser elevada ao status de “imortal”.


André Carvalho é proprietário do site www.OBaterista.com, baterista da banda Audiosapiens, publicitário por formação e jornalista por gosto. Contato: andre@obaterista.com

Sobre o site | Política de Privacidade | Contate-nos | 2009 OBaterista.com