
por Sérgio Gomes
A hemíola foi definia no período Barroco como sendo uma métrica binária dentro de um compasso ternário. Basicamente: 1 2 3, 1 2 3, soando como 1 2, 1 2, 1 2. O termo hemiolios tem origem grega e significa “um e meio”, “one and a half” em inglês, e configura a frase binária no compasso ternário. No período renascentista, esse deslocamento métrico já podia ser encontrado em peças de compositores como Josquin des Prez.
É preciso estar atento para não confundir a tercina, que é um grupo ternário de notas que acontece dentro um tempo (“pulso” ou “beat”) ou de forma expandida – sobre dois tempos ou quatro tempos, por exemplo – com a hemíola, originariamente frase binárias em compasso ternários.
Atualmente, a hemíola também é usada como o conceito genérico do “deslocamento da frase musical” em métricas diversas. Por exemplo, uma frase ternária dentro de um compasso quaternário, ou uma frase quinária num compasso quaternário, e assim por diante.
Na prática do instrumentista, o deslocamento da frase musical deve ser feito com a consciência de quantos compassos serão necessários para seu retorno ao primeiro tempo do compasso no qual está inserido. Para um deslocamento ternário em qualquer tipo de compasso, serão preciso três compassos. Parece óbvio e lógico, mas deslocamentos levam tempo para ser incorporados e tocados, que é o que nos importa, não é mesmo?
Abaixo um estudo de samba de meu livro “Novos Caminhos da Bateria Brasileira” (Ed. Vitale), também lançado nos EUA, Europa e Ásia como “New Ways of Brazilian Drumming”, em que pode-se identificar exemplos de hemíola sob a ótica de seu significado contemporâneo: o deslocamento da frase musical. No quinto sistema, os compassos 21, 22 e 23 exemplificam uma hemíola ternária (semínimas são a unidade de tempo) sobre num compasso binário: duas frases de três tempos em três compassos de dois tempos.
Há outras hemíolas ternárias, mas têm colcheias como unidade básica. A partir do segundo tempo do compasso 26, e concluindo no segundo tempo do compasso 28, há um outro bom exemplo.
Ouvindo a gravação é possível perceber a sensação de “flutuação” que as hemiolas proporcionam. Esse que é o barato!

Sergio Gomes é baterista, compositor, arranjador e professor. Bacharel em percussão erudita pela Unesp, especialista em educação para o ensino superior pela FMU, mestre em arranjo pela William Paterson University (USA). Contatos: www.sergiogomes.com, sergio@sergiogomes.com, www.myspace.com/sergiogomesjazz