
por Alaor Neves
A música voltar a fazer parte do currículo escolar brasileiro é um dos maiores acertos do nosso Estado em muitos anos. Antes tarde do que nunca! Por mais que me esforce, não consigo entender porque certas coisas acabam acontecendo. A saída da Educação Musical do currículo escolar do Brasil foi, no mínimo, estranha. Mais estranho ainda é ela não voltar, ou demorar tanto para voltar. A música sempre esteve muito presente em minha vida, tanto que me profissionalizei. Não consigo me imaginar sem ouvir nada musical um só dia da minha vida. Portanto, para mim, é como se tirassem qualquer outra disciplina do programa. Ou melhor, é mais absurdo terem tirado a música em vez da matemática. Usamos mais música que matemática no nosso dia a dia. Quando entramos no carro, a primeira coisa que fazemos, antes mesmo de ligar o motor, é ligarmos o radio. Pronto, já estamos sendo bombardeados com música. E a música está em todo lugar: é música para vender carros, para vender comida, para vender ilusões, idéias... Tudo, sem exceção, se faz com música. É absurdo as pessoas não saberem música, mas saberem matemática, história, geografia ou português! Aliás, por quê se aprende português na escola, e não música? O português é uma linguagem, da mesma forma que a música. Mas a música leva a vantagem de ser uma linguagem universal. A mesma partitura que se lê na China, se lê no Brasil ou na Europa, percebe? Além do que, a música que se produz no Brasil tem qualidade absoluta, e isso não é nem um pouco aproveitado.
A importância da musica na grade curricular é inquestionável. Costumo chamar a atenção das platéias, quando falo sobre minha carreira e realizações em workshops, sobre o fato de não termos música em nossas escolas e a nossa formação musical ser tão distante de qualquer arremedo de realidade. O fato de a opinião pública desconsiderar a música como opção de carreira profissional é no mínimo absurda. Nossa falta de sabedoria e esclarecimento musical propicia a fácil entrada de produções com baixíssima qualidade no nosso mercado, divulgando, em horário nobre, criações pobres, sem um mínimo de qualidade. Como já dizia minha avó, “em terra de cegos, quem tem um só olho é rei”.
Howard Gardner, psicólogo e PhD da Universidade Harvard, tornou-se mundialmente conhecido ao publicar sua Teoria das Inteligências Múltiplas (veja seu artigo “A Multiplicity of Intelligences”, publicado na revista Scientific American, em 1998, ou o livro “Inteligências Múltiplas: a teoria na prática”, publicado no Brasil em 2000), na qual conceituou a inteligência como "um potencial biopsicológico para processar informações, que pode ser ativado num cenário cultural para solucionar problemas ou criar produtos que sejam valorizados numa cultura". Ele demonstrava que a inteligência é composta de pelo menos oito competências: lógica-matemática, lingüística, musical, interpessoal, intrapessoal, corporal-cinestésica, espacial e naturalista, e sustenta que as inteligências não são objetos que possam ser quantificados, e sim potenciais que poderão ser ou não ativados, dependendo dos valores de uma cultura específica, das oportunidades disponíveis nessa cultura e das decisões pessoais tomadas por indivíduos e/ou suas famílias, seus professores e outros.
A Teoria das Inteligências Múltiplas teve enorme receptividade entre educadores do mundo todo, pois traz uma nova forma de enxergar o aluno e tem profundas implicações nas práticas pedagógicas.
Ele inclui a música como sendo uma das inteligências, em mesmo grau de importância da histórica, geográfica e matemática. Não ensinamos matemática às crianças na esperança de formarmos matemáticos geniais, mas sim para que elas conheçam a ferramenta e possam aplicá-la em sua vida. E é assim com todas as outras disciplinas.
Enfim, eu só queria deixar registrado, de alguma forma, minha perplexidade com fato de terem tirado a musica do currículo brasileiro, e também com o tempo que se demorou para fazê-la voltar. Parece que temos de cumprir a sina de sermos muito novos para adotarmos posturas mais sérias perante à vida com mais qualidade. Portanto, repito: Antes tarde do que nunca.
P.S.: Estou reticando a parte do texto em que digo ser a matemática um saber menos importante que a música. Depois que li o texto publicado percebi que, no afã de valorizar a música como um dos saberes de vital importância na formação do ser humano, ficou meio implícito que os outros saberes não tem a mesma importância da música. Eu me entusiasmei um pouco. É lógico que a escala de importância entre saberes é inexistente. Todos são muito relevantes na nossa formação global. E tenho dito!
Alaor Neves é baterista há mais de 30 anos, professor,e já tocou com inúmeros artistas de grande relevância como Sá & Guarabira, Sérgio Dias, Guilherme Arantes, Almir Sater, Renato Teixeira e Albert Collins, entre muitos outros. Atualmente toca com Caviars Blues Band e Mobilis Stabilis, coordena o curso de bateria da EM&T Santos e é graduando em pedagogia. Contato: www.comonline.com.br