
por Bruno Balan
Sempre gostei de um jogo de tabuleiro chamado WAR. Sim, aquele jogo de estratégia no qual tínhamos que conquistar os continentes do mundo (Europa, Ásia...), e vencia o participante que primeiro conquistasse os continentes solicitados na sua carta “Objetivo”.
E o que isso tem a ver com bateria? Nada, vamos mudar de assunto...
Brincadeira! É que percebi que podemos tirar algumas lições dele para a nossa prática do instrumento... Quem não conhece o jogo não precisa se preocupar, pois vou falar das associações que fiz sem me ater a regras muito específicas.
Como introdução ao assunto, destaco a palavra “jogo”. Quando alguém propõe: “Ei, que tal jogarmos...”, provavelmente a idéia será divertir-se. É exatamente assim que me posiciono com relação ao meu instrumento, costumo dizer que “jogo” bateria. Diverte, me faz aprender, aperfeiçoa minha coordenação motora, meu raciocínio. Mas, assim como no WAR (olha ele aí de novo), não entro pra perder. Mantenho o foco no meu objetivo, me esforçando para render o melhor e alcançar as metas estabelecidas.
E Começa a Partida
Sem objetivo não temos como começar o jogo. Então vamos supor que o meu seja conquistar a Ásia e a América do Sul. O que fazer? Vamos com tudo e com força total rumo à conquista desses continentes? Não é tão simples assim. É claro que essa é a minha meta, mas tenho que saber ser equilibrado e flexível, senão meus exércitos que estão em outros continentes ficarão muito vulneráveis a ataques e assim, sem uma força em conjunto, viro presa fácil e sou eliminado.
Análise 1 – planejando uma carreira como baterista profissional
Para alcançarmos nossos objetivos de criar uma carreira musical sólida e duradoura, é importante que consigamos reunir um conjunto equilibrado de habilidades. Bateristas que sabem fazer mil truques com as baquetas mas não conseguem extravasar sua musicalidade, transformando técnica em música; ou bateristas que querem ser especialistas em jazz (por exemplo) e, sendo assim, só vão estudar jazz, estão em desvantagem nesse “jogo”. No primeiro exemplo será difícil algum grupo ou cantor querer trabalhar com alguém que imprime um groove desconfortável para a banda, sem musicalidade. No segundo exemplo, a rigidez de postura pode levar esse perfil de baterista a perder oportunidades que poderiam trazer justamente a tão sonhada gig de jazz! Sabe aquela história: vai rolar um som com uma cantora bem conceituada na área do samba e sabe quem vai ser o guitarrista? Um grande nome do jazz que poderia curtir o teu som e oferecer trabalhos na área que você mais gosta. Mas foi outro batera, pois você não sabe nada de samba.
Concluindo, faltou uma visão global do que é ser um baterista que vive de música a esses dois perfis. Faltou-lhes flexibilidade. É importante definir em qual terreno você quer se especializar, se sente mais à vontade e quer se destacar, porém é importante ter um bom conjunto de atributos, uma base sólida, pra a casa não cair um dia.
Muito bem, voltando ao jogo, me concentrei então em fortalecer os meus exércitos antes de partir com tudo a um ataque mais radical. Rodada após rodada, fui acumulando o máximo de força possível para conquistar meu objetivo, mas aí começaram a me atacar e estou prestes a perder o jogo... Pergunta clássica: “Onde foi que eu errei”? Faltou ousadia e competitividade.
Análise 2 – aplicando o conhecimento
De nada adianta eu ter a discografia inteira do Billy Cobham se for ouvi-la somente quando estiver no computador conversando com meus amigos pelo MSN. Ou então gastar horas baixando dezenas de vídeo-aulas da internet pra depois ficar assistindo enquanto como pipoca. Colecionar é hobby, demonstrar aos amigos um conhecimento musical apurado é cult, mas... Vamos juntar nossos melhores discos, os melhores play-alongs, vídeo-aulas e métodos e vamos à luta! Se não arregaçarmos as mangas e encararmos o fato de que tocar bateria vai exigir esforço e dedicação de nossa parte, nem adianta reclamar depois que ninguém te chama pra tocar em uma gig legal. Não cabe a esse texto discutir o papel da música como uma forma de arte. Ela é e ponto final. Mas não sejamos ingênuos, a música também está inserida no contexto “mercado de trabalho”. Sendo assim, há e é importante que exista a competição. Desde que entendida como uma manifestação saudável, a competição nos dá motivação para ir mais longe, superar limites, ousar mais, pra assim nos destacarmos ante a uma quantidade enorme de profissionais da nossa área.
Já que só falar também é muito fácil, vamos a um exemplo prático. Veja o DVD “Acústico MTV”, da Marina Lima, e vejam quem está tocando bateria. Não é aquele cara da pipoca aí de cima não... É o Cuca Teixeira. Agora vejam o DVD “Segundo”, da Maria Rita. Será que resolveram dar uma chance pro nosso amigo? Não, também é o Cuca Teixeira. Ah, mas nosso amigo é um cara “malandro e persistente”, tentou uma audição pra banda da Paula Lima. Será que a sorte colaborou agora? É só ver o DVD “Samba Chic”, da Paula, pra tirar a dúvida... Lá está o Cuca de novo! Panelinha? Não mesmo. Competência, estudo sério, compromisso com a profissão. Isso sim que é malandragem, e é isso sim que favorece a sorte.
No desenrolar da brincadeira, eu estava até me restabelecendo no jogo. Aí um tio meu que estava por lá veio ver quem estava mais perto de conquistar o objetivo e gentilmente me disse que se continuasse naquele caminho ia perder. Agradecido, mudei a estratégia e, três minutos depois fui eliminado. Meu tio nem viu, pois já estava de saída para ir ao shopping.
Análise 3 – seguindo o seu próprio caminho
De maneira nenhuma estou propondo que nos revoltemos contra o mundo e sigamos rumo ao desconhecido, sem dar atenção a nenhuma opinião alheia. Mas é importante termos critérios antes de acatar ou não um conselho. Por que não ouvir a opinião de um tio sobre um problema amoroso? Por ser mais experiente, quem sabe ele não pode me ajudar e esclarecer questões que, sozinho, eu não consegui enxergar? Agora, se ele vier com um papo de que música não dá futuro, que experiência ele tem nisso pra poder afirmar, sendo engenheiro mecânico? Vamos supor que desanimo, paro com meus planos e vou estudar advocacia, pois “é mais seguro”. Desgostoso da vida, torno-me um profissional medíocre, infeliz e, desse jeito, constantemente desempregado ou ganhando mal, pulando de emprego em emprego por minha incompetência na área. A culpa disso tudo é desse tio ou minha? Minha, claro, pois por mais que tenha sido com boa intenção, o conselho dele não tinha base nenhuma e mesmo assim EU resolvi ir atrás.
Não importa qual carreira a ser seguida, temos que nos espelhar e buscar auxílio com profissionais que conseguiram obter êxito na profissão em questão. Claro que ninguém dará uma receita mágica para o sucesso (ela não existe), mas podemos obter orientações, conselhos e dicas valiosas pra começarmos a trilhar nosso caminho. A partir daí, trabalho, trabalho, trabalho. As dificuldades não são um privilégio da profissão de músico. Portanto, se é isso que você quer, melhor que seja difícil porém prazeroso, do que difícil e frustrante. As chances de dar certo são bem maiores assim. Fugir de conselhos de pessoas pessimistas que se colocam no papel de vítima também é uma boa idéia. Realmente, como disse Guimarães Rosa, “viver é muito perigoso”, então nada de ficar reclamando sem fazer coisa alguma pra melhorar. Primeiro faça, depois veja o que acontece.
Com certeza outras análises podem ser feitas em cima do WAR, o que renderia muito mais assunto. As minhas foram essas três e representam a minha opinião. Agora está na hora de tocar, tanto pra mim quanto pra você!
Bruno Balan é baterista e percussionista, bacharel pela FAAM sob a orientação de Sérgio Gomes e Alexandre Damasceno. Suas atuações como sideman incluem Joice Santos (MTV), Simone Pelissari, Rick Bueno (Trem da Alegria), Miro Dottori, Beba Zanettini, Demma K, Phedra D. Cordoba (Cuba), Olívia, Mona Gadelha, Gabriela Nader (Fama), Paulo Neto (Ídolos), Silvio de Campos Quarteto, Jorge Quase e Klaus Ximenes, entre outros. É diretor pedagógico dos cursos de Bateria e Percussão do Instituto Groove Urbano. Contatos: www.myspace.com/b_balan e b_balan@hotmail.com.