
por André Carvalho
Estou assistindo pela televisão os Jogos Olímpicos de Inverno, que este ano acontece na cidade de Vancouver, no Canadá. São esportes com os quais não tenho absolutamente nenhuma familiaridade. Esportes que se praticam na neve e no gelo, com equipamenos que passam longe das bolas e redes, campos e areias a que estamos acostumados. Mas gosto de assistir, independente de conhecer as provas ou não. As coisas de que o ser humano é capaz são impressionantes!
Sempre que se comparam bateria e esporte aparecem os aspectos negativos. Imediatamente pensamos em dois bumbos tocados a velocidades impossíveis, ou conduções de jazz a velocidades obscenas, ou coordenações anormais, ou algum outro extremismo.
No esporte, esse aspecto é o mais importante: o que está em disputa é o limite, a quebra do recorde. Então espera-se de um esportista que ele busque e supere o extremo. É sua função, é sua meta. Se não for para isso, o esportista vai à Olimpíada só para fazer número, “embelezar o espetáculo”, como se diz. E, nesse caso, a expressão é pejorativa.
Já quando falamos de música, a meta não é o extremo. As metas são a beleza e a expressão. Velocidade ou técnica extremas podem ter uma função para se alcançar estas metas, mas elas são isso, ferramentas, não o fim. Mas pretendo chamar a atenção para outros pontos sobre a relação esporte e música.
Atingir o “estado-da-arte” em alguma atividade significa executá-la como se não houvesse esforço envolvido, como se aqueles movimentos fossem naturais, dons inatos de quem age. Atribui-se a John Coltrane a seguinte frase: “Primeiro você aprende tudo sobre harmonia, melodia, tempo. Depois esquece tudo e toca”. Esse é o sentido da expressão “estado-da-arte”.
Nas provas olímpicas, especialmente, conta muitos pontos uma execução que atinja o “estado-da-arte”. É aquela prova perfeita, sem erros, em que o atleta parece simplesmente não se esforçar em executar os movimentos. Não há tensão, não há nada brusco ou violento. Tudo parece suave, relaxado. E estes mesmos aspectos são valorizados na atuação do músico.
Pois bem, se há aspectos da prática esportiva que coincidem com aspectos da prática musical, então podemos observá-los e aplicá-los para alcançar objetivos musicais e artísticos mais elevados. Concorda?
Disciplina
Um bom esportista é disciplinado. Ele estuda durante um período determinado do dia, e transforma esse estudo em sua rotina. Escolha um horário do dia para realizar seus estudos e crie uma disciplina para isso.
Eu, por exemplo, acostumei a estudar entre 8h e 9h da manhã. Há dois motivos para isso: primeiro, começo meu dia na bateria, o que é ótimo. Estou descansado e relaxado, e o estudo rende. Segundo, se não estudar neste horário, meu dia não permite que eu estude.
Concentração e Relaxamento
Talvez esta seja a parte mais difícil: concentrar-se no que está fazendo, seja estudar, seja tocar, sem perder ao relaxamento. Observe um esportista: ele se concentra na prova e nos movimentos que vai relaxar. Para chegar a esse nível de concentração ele precisa ter passado por uma longa preparação. A preparação gera segurança, e a segurança gera relaxamento.
Costumo ensaiar muitas vezes com minha banda, mesmo depois de termos dominado as músicas que vamos tocar. Estes muitos ensaios nos fazem manter a música na cabeça e no corpo e decorar as passagens.
Treinos alternativos
Imagine um corredor da prova de 100 metros rasos. Ele precisa de uma pista para treinar, certo? Mas e o que ele faz quando chove, por exemplo? Ele busca uma forma alternativa de treinar. Um exercício, uma prática, algum tipo de estudo sobre sua próxima prova ou adversários. Imagine maneiras de fazer isso também quanto à bateria. Se nãopuder estudar nokit ou na borracha, ouça música, escreva música, assista a um bom baterista tocando, pense no que vai tocar. Você pode achar que não, mas ajuda.
Uma coisa que costumo fazer é pensar na execução das passagens, me imaginar tocando. Com isso, consigo perceber onde meus movimentos perdem precisão e o que fazer para corrigir isso. Há pouco tempo percebi que executava a manulação de uma frase de maneira errada, e por isso eu errava tantas vezes ao tocar.
Como se pode ver, há uma série de conceitos da prática esportiva que podemos aplicar à prática do nosso instrumento. Basta lembrar que a bateria é, sim, um instrumento de performance física, e o corpo do baterista torna-se parte do instrumento. Do esportista, devemos buscar a inspiração e a dedicação para fazer sempre melhor. Já na arte e na busca pelo belo devem estar nossas metas.
André Carvalho é proprietário do site www.OBaterista.com, baterista da banda Audiosapiens, publicitário por formação e jornalista por gosto. Contato: andre@obaterista.com