Indústria cultural

por André Carvalho


Você com certeza já ouviu essa expressão – indústria cultural – em algum lugar. Mas sabe o que é? Tem idéia do que quer dizer? Sabe que está inserido nela até o pescoço (e às vezes mais)? Sabe como ela influencia sua atividade musical?

A indústria cultural é um fenômeno do século XX, caracterizado pela reprodução em escala industrial de artigos chamados “de arte”, transformados em produtos, com a intenção de vender a própria obra (em forma de CDs ou livros, por exemplo) ou produtos associados (como camisetas, broches e etc.).

O professor Luiz Costa Lima escreve em seu livro Teoria da Cultura de Massa (Paz e Terra, 7ª edição, 2000) que isso a que chamamos indústria cultural é fruto de uma “cultura de massa”, que aparece no século XX por causa de uma série de fatores: a arrancada do sistema capitalista, o aumento da velocidade das comunicações, o aparecimento dos meios de reprodução em massa (a revolução industrial do final do século XIX e começo do XX), a queda dos custos dessa reprodução e o surgimento dos veículos de comunicação em massa (o mass media), como os jornais e, principalmente, o rádio. O professor explica que há ainda uma segunda camada “responsável pelos efeitos próprios dos mass midia. Ela é o sistema social que integrou os veículos de comunicação de massa, limitou seu alcance e os atrelou às suas diretrizes econômico-políticas” (LIMA, pg. 44). É dessa integração que surge o que chamamos indústria cultural.

A expressão “indústria cultural” foi consagrada por dois pensadores alemães, Max Horkheimer e Theodor Adorno, num artigo publicado pela primeira vez em 1948 chamado “A Indústria Cultural” (a versão em que me baseio para escrever este artigo é a publicada no livro do professor Luiz Costa Lima, traduzida por Júlia Elizabeth Levy e revisada por Otto Maria Carpeaux). É um texto difícil de ler, e é muito crítico. Segundo eles, “a atrofia da imaginação e da espontaneidade do consumidor cultural de hoje não tem necessidade de ser explicada em termos psicológicos. Os próprios produtos, desde o mais típico, o filme sonoro, paralisam aquelas faculdades pela sua própria constituição objetiva (...) de modo a vetar, de fato, a atividade mental do espectador, se ele não quiser perder os fatos que, rapidamente, se desenrolam à sua frente” (HORKHEIMER, ADORNO apud LIMA, pg. 175).

O que eles querem dizer é que a indústria cultural cria produtos de consumo rápido, e que o consumidor não tenha tempo de pensar e avaliar o que está consumindo (isto é, assistindo, ouvindo, etc.): “a indústria cultural por fim absolutiza a imitação” (HORKHEIMER, ADORNO apud LIMA, pg. 179). E, por causa dessa falta de avaliação, continua consumindo.

Podemos cita como exemplo aquele tipo de música que só dura uma temporada, que será ouvida exaustivamente durante seis meses, com aquele refrão grudento e aquele balanço dançante, mas sem conteúdo, vazia, e depois nunca mais farão diferença na vida de ninguém. É isso mesmo: “você não vale nada, mas eu gosto de você”.

Mas não estamos falando só de tranqueiras obviamente feitas para vender. Estou falando também de grandes sucessos do rock e – pasme – do jazz e do fusion. Muitas destas músicas não são concebidas como obras de arte, mas como simples produtos, que serão bem vendidos agora e esquecidos depois. Isto é, muito do que nós todos (eu inclusive, que toco numa banda de pop rock) fazemos com prazer todos os dias.

Adorno é muito duro com a música em especial. Ele tem um artigo chamado “Sobre o jazz” em que fala do estilo como algo vazio em que a boa harmonia é sacrificada por bases simples que permitam ao solista improvisar indefinidamente. Do improviso, diz ser algo que não pode permanecer, que logo após seu fim ninguém mais o lembrará, nem mesmo o solista, posto que era um improviso. Mas lembremos que quando Adorno escreveu que o jazz é a “vitória da massificação e do automatismo sobre a atividade artística genuína”, o fez na década de 1930, portanto bem antes de obras-primas como o “Kindo of Blue”, de Miles Davis, quando o jazz era música “de entretenimento”, aquela com melodia grudenta e balanço dançante. E também que ele era pianista de formação clássica, estudou harmonia por vários anos com Alban Berg e apreciava a música de Arnold Schoenberg, o criador do dodecafonismo.

Isso quer dizer que essa tal indústria cultural, que gerou a era dos LPs, de onde tiramos todas as nossas referências, de onde vieram obras incríveis como o já citado Miles, como John Coltrane, Art Blakey, Dizzy Gilespie, e Beatles, Led Zeppelin, Yes, Dave Matthews Band, e tantos outros que nos maravilham, que isso é necessariamente uma coisa ruim e que só tem feito mal à cultura ocidental?

Sim, mas não sejamos drásticos. Também não é o fim do mundo.

A professora Leda Tenório da Motta, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, diz, em suas aulas, que a indústria cultural tem seu lado negativo, que deve ser observado com olhos críticos, mas que também permite o surgimento de pequenas obras de arte, e que a adaptação de alguns artistas é um meio de mostrar seu trabalho e sobreviver. Não devemos demonizar a indústria cultural, pois estamos dentro dela e muita da nossa evolução socio-cultural é fruto dessa cultura de massa. Basta assistir a um episódio d’Os Simpsons para ver o quão fundo estamos na indústria cultural, e quanto podemos criar a partir dessa situação.

A pofessora cita Walter Benjamin, pensador proveniente da mesma Escola de Frankfurt de onde sairam Horkheimer e Adorno, que apreciava a poesia concreta do começo do século XX e também trabalhava com propaganda. E hoje encontramos grandes músicos que criam música de fundo para a propaganda, como Zé Rodrix e o maestro Tuca Camargo. E isso não faz deles músicos menores. É só uma maneira de usar seu talento.

Além destes casos, há os músicos que disponibilizam seu talento para bandas ou artistas “de massa”, como músicos contratados. E, mais uma vez, isso não é um crime. O artista precisa se manter, e nossa sociedade é uma sociedade de massa, e nem sempre uma determinada obra será compreendida por um grande público e gerará recursos para que o artista se mantenha desta obra. Todos sabemos: é muito comum encontrar músicos incríveis que tocam com artistas pop pelo dinheiro, e usam este dinheiro para bancar seu trabalho autoral. Querem exemplos maiores que Vinnie Colaiuta tocando com Madonna, ou Lael Medina tocando com o Rouge? Mas são esses trabalhos que lhes possibilitam fazer trabalhos como o Karizma ou o Pianistas Paulistas.


André Carvalho é proprietário do site www.OBaterista.com, baterista da banda Audiosapiens, publicitário por formação e jornalista por gosto. Contato: andre@obaterista.com


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