
por Arlem Ribeiro
Olá, amigos percussionistas. Esta é minha estréia nesta coluna e muito me honra em participar deste espaço inovador e democrático de discussão sobre a bateria, a percussão, suas técnicas e tantos outros aspectos da música.
Fiquei pensando sobre o que poderia escrever em uma primeira vez, numa tribuna que se destaca pela capacidade de revelar as particularidades dos instrumentistas da bateria e da percussão em geral. Pois bem, resolvi contribuir para uma reflexão que muitos fazem sobre o mercado e a música brasileira em geral, sobre uma certa crise da canção, da inexistência do novo, da falta de idéias revolucionárias ou simplesmente de algo contagiante.
Será que existe uma em crise mesmo? A pergunta me faz voltar no tempo e analisar alguns aspectos que transformaram a produção musical brasileira. Indubitavelmente o mundo há cinquenta anos atrás era outro, possuíamos uma experiência sensorial muito mais relacionada ao ouvido, a comunicação em massa se dava por ondas radiofônicas. No Brasil, o rádio chegou em 1922, na cidade do Rio de Janeiro, junto com o processo de urbanização. Era sinônimo de modernidade e, como hoje em dia, a sociedade brasileira queria fazer parte das transformações já existentes no chamado primeiro mundo. Nele existiam programas de auditório, notícias, dramaturgias e música, muita música, cantores, grupos musicais, carnaval e orquestras. O veículo, até então único, permitia às pessoas, por não verem seus ídolos, imaginá-los, transformando a experiência auditiva em algo muito criativo. O rádio em pouco tempo tornou-se no grande companheiro dos brasileiros. Sua programação tratava de refletir os jeitos e estilos da sociedade.
O surgimento do rádio e os aspectos sociais foram fundamentais para dinamização da música brasileira. Na década de 1920 éramos um país ainda recententemente republicano e, portanto, com muitos vícios da monarquia; a industrialização se iniciava, mas a principal política econômica estava baseada no café e no final dos anos 50 a maioria da população ainda morava no campo. Naquele momento também podia se ouvir, nos cinemas, os choros, maxixes, cateretês e batuques de Pixinguinha, João Pernambuco e Ernesto Narareth, mas as décadas de 30, 40 e 50 no Brasil foram de diversas transformações, do nacionalismo de Getúlio Vargas às influências norte e latino americanas, com seus boleros, mambos e chá-chá-chas. No rádio se ouvia principalmente o samba-canção, mas também os sambas de Dorival Caymi, as baladas de Lúcio Alves e o baião do próprio Luiz Gonzaga. Mais tarde os próprios percussores da bossa-nova, como Johnny Alf, João Gilberto, Tom Jobim, Carlos Lira e outros, vão se remeter mais influentes do bolero (samba-canção) do que do samba. Penso que a partir deste contexto podemos traçar um pensamento da nossa música atual.
O processo de construção da música brasileira foi, e continua sendo, de modo antropofágico e conflitante nas relações culturais. Ao mesmo tempo, com generosidade, adicionamos diversos elementos à nossa música e negamos os aspectos africanos quando estes se mostram “demasiadamente” diversos.
Com um grande salto no tempo, indo para a década de 50, nos deparamos com o país de Jucelino Kubitschek, que impôs um marco modernizador e, em paralelo, surgiu o movimento musical mais importante do Brasil, a Bossa Nova. Posteriormente a eclosão dos festivais da canção que, assim como o rádio, também refletiam aspectos culturais e políticos da sociedade, projetaram artistas repóteres do tempo, como Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Edu Lobo, Jair Rodrigues, Elis Regina, Tom Zé e Rita Lee, entre outros. Logo depois emergiria também o movimento tropilcalista, capitaneado por Gilberto Gil e Caetano Veloso. Lembrando que nestes dois momentos inúmeras produções artísticas ficaram excluídas da produção da indústria musical.
Observando, ainda que superficialmente, a trajetória da música brasileira neste século, notamos que não soltamos as amarras da projeção cultural do eixo Rio-São Paulo, não apenas por questões ideológicas, mas também pelo desenvolvimento econômico dessa região. Esta ação provoca um paradoxo: de um lado, ligado ao negócio do entretenimento, Rio e São Paulo possuem teatros, salas de concerto e centros culturais diversos. Do outro lado emerge uma falta de conhecimento da sua própria história. Nestas duas cidades se expõem elementos culturais do Brasil e do mundo, há aspectos cosmopolitas, mas não os conciliam com a memória e suas referências. Nesse sentido o desenvolvimento da produção cultural em outros estados e cidades também riquíssimos parecem não existir, ficam subjulgados à espera da sorte, dos agentes culturais, de uma lei de incentivo, de um empresário.
Indaguei, no início, se estávamos em crise. Talvez sim, ser um bom músico hoje em dia não significa “apenas” tocar bem. Ele precisa saber gerenciar seus projetos, conhecer leis de incentivo, escrever projetos, conseguir veiculá-los na imprensa, ficar amigo de algum jornalista do meio e, em níveis mais destacados de artistas, ir a festas e coquetéis para se mostrar e “ajeitar as coisas”, etc. Afinal, sobra tempo para ler, escrever, compor, arranjar ou estudar?
As transformações sociais, culturais, políticas e técnológicas do nosso tempo estão nos trazendo uma nova realidade, repleta de indagações. Se estamos em crise, não sei. Mas sinto muita falta daquela música que se fazia de forma coletiva, no rádio, no cinema, no coreto da praça, no teatro e na TV. Aquela que, além dos duos, trios e quartetos, eram tocadas com dez, quinze, vinte músicos no palco, no estúdio.
Se a canção já foi melhor, talvez seja por que os músicos tinham um papel preponderante na direção da obra. Música, assim como o cinema, é uma arte coletiva. Os melhores discos de Chico e Caetano não o seriam sem a presença de Rogério Duprat e Julio Medaglia. Os festivais da canção não marcariam época sem a presença variada de músicos, estilos e orquestras. A Bossa Nova não alcançaria o reconhecimento internacional se não transitasse em tantos estilos de músicos e não acolhesse a todos.
A história nos mostra que nossa música é de uma trajetória maravilhosa, diversificada e conectada com o mundo. Entretanto a lacuna desde o inicio do século, de uma educação musical, nos faz hoje um país quase surdo.
Arlem Ribeiro é baterista, percussionista, vibrafonista, marimbista, professor do Conservatório Morumbi e idealizador do projeto Praticatatum. Formou-se baterista no Conservatório Morumbi (SP) e já se apresentou e gravou com grandes nomes da música brasileira.