
Ritmos do Candomblé – Parte 4
Por Roberto Rutigliano
Estamos terminando o ciclo de quatro artigos dedicados à música do Candomblé e suas adaptações à bateria. Existem muitos mais ritmos maravilhosos dos quais poderíamos falar, como o Barravento, o Ibi, o Congo, etc., e seguramente continuaremos falando em algum outro momento.
Vamos ao ritmo: o Opanije.
O Opanije, assim como o Ilú, pertence à tradição de Keto (ritmos que se percutem com “agdavis” – baquetas). O tempo normal de execução é de 50 à 60 pulsações no metrônomo.
Existem diferentes qualidades nos ritmos de origem africana. Alguns têm uma característica mais expansiva, como é o caso do Afoxê e da Cabula, e outros preferem os tons mais obscuros, como ocorre com o Opanije. Aqui está um vídeo de uma cerimônia em que se toca o Opanije, filmado num terreiro de Candomblé.
O ritmo é relacionado aos orixás Obaluaê e Omulum (jovem e velho, respectivamente, da mesma energia). Eles são orixás ligados a questões como saúde e doença, vida e morte.
No livro “As melhores historias da mitologia africana”, de Carmen Seganfredo e A.S. Francini, podemos acompanhar a historia que conta o porquê da vestimenta do orixá: conta à lenda que Obaluaê estava chegando a uma festa com feridas de pele expostas e foi “camuflado” com palhas por todo o corpo, para que os convidados não ficassem impressionados com sua aparência e permitir que a festa continuasse normalmente. Iemanjá se condoeu dele e sopro o vento da cura, e suas feridas explodiram em forma de pipocas, daí sua aparência e o porquê de jogarem pipocas para o ar nos rituais dedicados a ele.
Agora vejamos o que toca a frase do Gâm (agogô):
E os tambores de base, reproduzidos numa caixa sem esteira.:
Agora vamos introduzir sons do vocabulário do Rum e tocá-los no bumbo, junto com a frase base que tocamos na caixa:
Por último, vamos tocar uma levada com condução na linguagem natural da bateria:
E agora outra, um pouco mais sofisticada:
Para quem se interessar em continuar pesquisando sobre o tema, e a modo de homenagem, gostaria de apresentar a vocês um artigo escrito por Ramiro Mussotto, músico e estudioso argentino-brasileiro que vive no Brasil há 25 anos.
E este é o link para a página pessoal de Reginaldo Prandi, pesquisador brasileiro que escreveu excelentes textos sobre o tema.
Espero ter contribuído para aliviar a ignorância e a inflexibilidade que pesa sobre o Candomblé e que impede que música e mitologia possam ser apreciadas dentro de sua devida beleza. Espero, também, que estes artigos consigam interessar os músicos a incluir em seu repertorio e estudo elementos da música do candomblé, como fazem Conrad Hernwig e Steve Coleman, junto com Afro-Cuba de Matanzas, Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz, Rebeca Mauleon, Francisco Aguabella, Changuito, “Chucho” Valdez, Myke Spiro e Mark Lansom, entre outros.
Por último, para ilustrar as possibilidades que temos na utilização destes estilos fora de seu contexto religioso, vamos a ouvir duas músicas: a primeira é “Eleguá-Exu”, misturando ritmos do Candomblé de Cuba e do Brasil, gravado justamente por Myke Spiro e Mark Lansom no disco “Bata Ketu”:
E um exemplo de Afro-Instrumental, de Xandy Rocha, a música “Floresta da Tijuca”, gravada pelo grupo Xekerê no disco “Latin Jazz Brasil”, em que toco bateria.
Roberto Rutigliano é baterista e professor. No Rio de Janeiro, estudou música brasileira com Cláudio Caribé, Wilson das Neves e Ney D’Oxosse, pesquisou música ritual afro-brasileira em terreiros de candomblé e tocou em escolas de samba. Gravou com Sérgio Naciff (1990), com o grupo Xekerê (desde 1993) e Itiberê Orquestra Família (2002), e participou do Festival de Música Contemporânea em Belo Horizonte (2002), com Maria Tereza Madeira, Paulo Santoro e Andréa Ernest Dias. Mantém, com Odette Ernest Dias, o duo Aritmo. Desde 1996 é professor da Pro Arte. Contato: www.myspace.com/robertorutigliano