
Ritmos do Candomblé – Parte 1
Por Roberto Rutigliano
O intuito deste artigo é apresentar, a partir de uma abordagem histórica e reprodução musical para a bateria dos ritmos do candomblé, um panorama vivo da música popular brasileira. Farei a demonstração musical de dois ritmos: o Ilú e o Ijexá. Vamos começar com o Ilú, e falaremos também da sua influência em outras culturas e contextos musicais.
O Ilú
Da tradição nigeriana (Ketu), também conhecido como Ilú de Iansã, o Ilú é um ritmo que aparece em andamentos rápidos e tem como característica uma grande energia. Iansã é um Orixá feminino que simboliza a força dos ventos, dos raios e trovoadas. Reproduzo a frase dos atabaques agudo e médio (chamados, respectivamente, de Lê e Rum-pi), que tocam em uníssono esta frase.
Obs.: A mão direita toca linha do Gâm e a mão esquerda ghost note.
Agora vamos a mostrar o que toca o agogô (chamado de Gâm):
Clique aqui e veja um vídeo do Ilú sendo executado.
Ou clique aqui para baixar um áudio da execução tradicional
A frase musical básica do Ilú aparece também em outras situações. O ritmo é o que podemos chamar de “célula mãe da música”, e a podemos encontrar, por exemplo, numa das partes do Danzón, que é um ritmo tradicional cubano:
Clique aqui e veja um vídeo do Danzón sendo executado.
Outro lugar onde encontramosas essa célula básica é nas variações da condução do be-bop, no Jazz:
E também a vamos encontrar na frase da caixa da Escola de Samba Mangueira:
Clique aqui para ver a execução da caixa na Mangueira.
Agora vamos adaptar o Ilú na bateria: tocaremos o ritmo com as mãos na caixa, com a esteira desligada. O chimbal reproduzirá o som da mão, junto com a baqueta no couro, e o bumbo improvisará com idéias do atabaque solista, chamado Rum.
É importante situar-se na instrumentação original do ritmo para tentar entender a opção que fiz em colocar a função “ostinato” na caixa e a “solista” no bumbo. Para estudar a independência necessária e deixar a abordagem moderna, podemos estudar o Ilú na caixa e as frases do livro Syncopation (“Progressive Steps to Syncopation for the Modern Drummer”, de Ted Reed) no bumbo.
Roberto Rutigliano é baterista e professor. No Rio de Janeiro, estudou música brasileira com Cláudio Caribé, Wilson das Neves e Ney D’Oxosse, pesquisou música ritual afro-brasileira em terreiros de candomblé e tocou em escolas de samba. Gravou com Sérgio Naciff (1990), com o grupo Xekerê (desde 1993) e Itiberê Orquestra Família (2002), e participou do Festival de Música Contemporânea em Belo Horizonte (2002), com Maria Tereza Madeira, Paulo Santoro e Andréa Ernest Dias. Mantém, com Odette Ernest Dias, o duo Aritmo. Desde 1996 é professor da Pro Arte. Contato: www.myspace.com/robertorutigliano