Exercícios, vídeos, dicas e confissões - Parte 1

Por Christiano Rocha



LEGENDA:


Olá! Primeiramente gostaria de agradecer ao André Carvalho pelo convite para escrever quatro colunas em obaterista.com, site que sempre acompanho. Aqui todos podem ver quem é quem!

Ao longo dessas colunas abordarei assuntos distintos, de forma sincera, descontraída e prática, auxiliado por alguns vídeos postados. A primeira coluna será bem mais extensa que as demais, pois estamos de férias. Para iniciar, escolhi alguns padrões rítmicos baseados em gêneros e estilos musicais brasileiros. As partituras são referentes ao artigo “Drumset Artists of Brazil”, veiculado na edição de setembro de 2009 da revista Modern Drummer norte-americana. Foi escrito por Chuck Silverman, e contou com a participação de Celso de Almeida, Giba Favery, Ramon Montagner, Robertinho Silva, Teo Lima e Tutty Moreno.

Para otimizar seu estudo, confira aqui o vídeo demonstrativo com todos os exercícios aqui propostos.

Boa parte das partituras da matéria foi extraída do CD Ritmismo e do método Bateria Brasileira. Tentei fugir do monótono, “intelectualóide” e pretensioso “bossa é assim, baião é assado, isso pode, aquilo não pode, agora uma batucada, um maracatu e até logo”. É importante conhecermos a tradição, claro, mas não podemos parar no tempo, senão vira “tardição”. Temos inúmeros grandes bateristas que vêm inovando a arte de tocar música brasileira, ao longo de várias décadas. De Luciano Perrone a Cuca Teixeira.

O exemplo 1 é o ostinato básico da peça “Baião de Três”, presente no CD e no método (então alguma aplicação teve, só não fiquei rico). Está escrito em 2/4, mas pode ser escrito em 6/4 também. Na verdade, esse ostinato é mais manjado que o Jason do filme “Sexta-feira 13” ressuscitar. A diferença é que o chimbal abre a cada três colcheias, a partir do tempo 1, em que pé executa todos os toques, abertos (o tal do “foot splash”) e fechados. Às vezes uso a célula rítmica do chimbal sem o bumbo, como no vídeo a seguir, que tem um solo de bateria em 3/4 (em 1:25). Um dos motivos pelo qual faço isso é para manter uma referência para os outros músicos.

Recomendo que você pratique separadamente a célula rítmica do chimbal. Depois aplique em alguma levada (comece com uma levada de rock com colcheias e condução no prato, por exemplo). Posteriormente, aventure-se a solar em cima desses ostinato. É mais fácil que parece. Paciência é a palavra-chave.

Se quiser a partitura e o áudio da peça “Baião de Três” na íntegra (e não tiver o método Bateria Brasileira) me mande um e-mail que eu envio para você.

O exemplo 2 é uma levada básica de jequibau (não é “jequitibau”), um tipo de bossa em 5/4, mas não é nenhum bicho de sete cabeças (nem de cinco). O jequibau apareceu em São Paulo, em 1965, e foi “criado” pelo maestro Ciro Pereira e por Mário Albanese. Repare que o chimbal faz uma marcação em 2/4. É uma das características do jequibau na bateria. Posteriormente, isso virou um recurso usado em pop, rock etc. (King Crimson, Sting, Seal, Dream Theater etc.). Utilizo um ostinato baseado no jequibau em algumas (poucas) situações, como no vídeo a seguir, em que toco o clássico “Take Five” (Dave Brubeck).



 

O exemplo 3 é um samba em 7/8 utilizando rulo simples (single stroke roll) e é muito mais fácil que aparenta. Quase uma enganação. Usei essa levada na faixa “Bom Retiro”, do CD Gandaia, do grande violonista e caro amigo Zezo Ribeiro (em meu CD Ritmismo, a música foi “reformada” e tornou-se “Não Retiro”).

O exemplo 4 é uma célula rítmica de surdo (com variações) usada no samba, que facilitará o entendimento de “parte” do suingue do samba, com seu usual acento no tempo 2 de um compasso binário. Claro que o papel do surdo no samba não é apenas o de marcar o tempo 2. Nas escolas de samba existem três tipos de surdo: surdo de primeira (ou surdo de marcação), que marca o tempo 2; surdo de segunda (ou surdo de resposta), que marca o tempo 1; e surdo de corte (ou “cortador”), que executa variações.
Você pode notar no vídeo “Drumset Artists of Brazil” (o primeiro vídeo desta lição) que existem muitas possibilidades timbrísticas com apenas um tambor e uma baqueta.

Legenda:




No exemplo 5, temos um samba em 9/8. No CD Ritmismo, a faixa “Ritmismo” (Zezo Ribeiro) apresenta compassos em 3/4, 6/8, 7/16, 4/4 e um samba em 9/8. Para desenvolver um samba em nove “redondo”, roubei a ideia do jequibau e coloquei um chimbal em 2/4, criando assim um ciclo de quatro compassos.
No vídeo, você vai notar que uso flams de aro no samba, entre o aro do tom 1 (apojatura) e o aro da caixa (toque principal). Não fui eu quem inventou isso! Roubei a ideia do Milton Banana (Teo Lima usa bastante o recurso também. E muito bem!).
Dica: ouça com atenção Teo Lima. Além de tocar com Ivan Lins, tem um trabalho magnífico com o Batacotô, grupo fundado e liderado por Teo (o Batacotô tem três CDs lançados no mercado). Teo também está lançando um CD com seu quarteto: Djavan Também é Samba.


O exemplo 6 foi criado apenas para eu não passar vergonha, pois toda aula que explicava compasso, dizia que “a bateria é o único instrumento capaz de tocar quatro compassos diferentes, simultaneamente”. Bonito, não? O problema é que não sabia fazer isso na prática, que é onde conta, e rezava para nenhum aluno perguntar: “Mas como soa isso então?” Criei vergonha na cara e escrevi o exercício a seguir (depois de muito neurônio torrado, horas de estudo e dias de desespero). Finalmente, comecei a mostrar na prática, sem reza, esse negócio de tocar quatro compassos ao mesmo tempo, mas sempre falava no final: “essa porcaria não sempre pra p... nenhuma, o.k.? É apenas um exercício!” Na mesma música que tem o samba em 9/8 (“Ritmismo”), existe um solo de bateria em 7/16. Não é que essa “porcaria que não serve pra nada” encaixou? Hoje, não digo que isso não serve pra nada (nem que serve para “quase nada”).
No exemplo 6, o pé esquerdo toca o mesmo ostinato do exemplo 1 (3/8); o pé direito (bumbo) toca a célula básica de baião, em 2/4; a mão direita (ride) toca em 5/16 (fique atento às cúpulas); e a mão esquerda (tambores) toca em 7/16. Escrevi apenas um trecho, mas o ciclo inteiro leva cento e seis compassos em 2/4 para fechar.
Tocar essa bagunça não requer talento, mas precisa ter uma paciência de chinês!


Um 2/4! Que delícia!
O exemplo 6 é uma levada de samba de roda, adaptada para esse instrumento maravilhoso capaz de tocar quatro compassos diferentes simultaneamente, que é a bateria. Note que o chimbal faz um ostinato parecido com o bumbo do xaxado. Ele simula as tradicionais palmas do samba de roda.


Já o exemplo 8 não serve pra p... nenhuma mesmo! É um samba reggae em 7/8. Você já viu um samba reggae em 7/8? Não? Nem eu! Confesso que esse samba reggae em 7/8 é pura perda de tempo, mas o ostinato com o chimbal, em sete, dá para aplicar em ritmos setenários, como no vídeo a seguir, em que toco uma salsa em sete.




O exemplo 9 é “quase” uma bossa tradicional. A pegadinha é que o chimbal faz um desenho igual à célula do aro da caixa, mas tocado invertido, começando pelo segundo compasso (ou seja, compasso 1 do aro = compasso 2 do chimbal e compasso 2 do aro = compasso 1 do chimbal). O interessante é que não há toques simultâneos entre chimbal (pedal) e aro de caixa.


A partir daqui, os exercícios fazem parte somente do vídeo “Drumset Artists of Brazil”, não do artigo, ou seja, as partituras são inéditas.

O exemplo 10 é um ritmo de candomblé com subdivisão ternária. A esteira da caixa deve ser desligada para executar esse ritmo hipnótico. Lembro que aqui, como na maioria dos ritmos/estilos brasileiros, a bateria adapta partes da percussão. Toque a caixa com a esteira desligada.


Outra levada de candomblé, mas com subdivisão quaternária. Fique atento à acentuação no chimbal.


 

Caboclinhos é originário de Pernambuco e, apesar de não usar bateria em sua instrumentação original, é um ritmo simples e gostoso de tocar.


Agora uma levada de coco, outro ritmo do Nordeste (ouça Jackson do Pandeiro!), muito bacana, que roubei de meu amigo Lauro Lellis, baterista do Tom Zé e excelente educador.


Hora de um 3/4. A guarânia é um ritmo originário da região Sul do País. Simples, mas gostoso de tocar. Já usei esse ritmo em diversas situações, não apenas em guarânias.


Mais um ritmo de Pernambuco, Estado de uma riqueza rítmica ímpar. O mangue beat apareceu com Chico Science & Nação Zumbi. Costuma ser tocado com diversos tambores, imprimindo uma força descomunal ao ritmo (bela frase, não?).


Mais Pernambuco! Agora vamos de maracatu de baque virado (também conhecido como maracatu nação). Ouça, além dos grupos de maracatu tradicionais, bateristas como Ebel Perrelli e Cássio Cunha, que tocam ritmos pernambucanos de maneira bastante moderna. Muito bacana!
Mais uma dica: o ótimo livro “Maracatu Baque Virado e Baque Solto”, de Climério de Oliveira Santos e Tarcísio Soares Resende.


É isso aí! Caso queira entrar em contato comigo, mande um e-mail para christianorocha@terra.com.br.
Até a parte 2!
Um grande abraço e um grande 2010!


Christiano Rocha tocou em shows, gravações e clínicas no Brasil e no exterior, juntamente com Andreas Kisser, Cauby Peixoto, Celso Pixinga, Chico Buarque, Chico César, Corciolli, Dominguinhos, Dori Caymmi, Elba Ramalho, Eric Marienthal, Eugénia Melo e Castro, John Patitucci, Jorge Vercillo, Karnak, Mozart Mello, Naná Vasconcelos, Nuno Mindelis, Orquestra Arte Viva (do maestro Amilson Godoy), Paulinho da Costa, Paulo Moura, Stuart Hamm, Tony Levin, Toquinho, Wander Taffo, Zérró Santos e Zezo Ribeiro, entre outros. É autor do método Bateria Brasileira. Lançou o CD Ritmismo, agraciado com o Prêmio Estímulo de Música 2007. Leciona no IP&T (Instituto de Percussão e Tecnologia), em São Paulo, e é coordenador das colunas de estudo da revista Modern Drummer Brasil. Atualmente toca com Adriana Godoy, Corciolli, Peninha e com seu próprio grupo. Contatos: www.christianorocha.com e www.myspace.com/christianorocha.

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