Dando vida ao pé esquerdo

Por Nelton Essi

Olá, pessoal! Muitas vezes tratamos o pé esquerdo no chimbal como apenas um marcador de tempo, ou contratempo. Mas podemos também encontrar no repertório baterístico pequenas frases de um ou dois compassos que se repetem, constituindo um ostinato, como as claves na música cubana ou o gonguê no maracatú. Poderíamos até tocar pequenas frases de bossa-nova enquanto escovamos a caixa, etc. Bom, e se quisermos improvisar? Criar frases, colocando o chimbal com o pé esquerdo em outros contextos, mais longos? Então teremos de estudar o relacionamento entre pés e mãos, esgotarmos as possibilidades de tal forma que não nos confundamos na hora de tocar.

Aprendi este estudo com o professor José Carlos da Silva, o “Zé Carlos”. Durante meus estudos senti a necessidade de desenvolver outras formas de aplicar o pé esquerdo, tanto para aumentar as possibilidades fraseológicas quanto para diminuir ao máximo os problemas de coordenação entre os membros que tais frases proporcionavam.

Estes exercícios, quando aplicados em um contexto musical, trazem uma sonoridade bastante sofisticada e moderna à levada. Por outro lado, traz também algumas complicações motoras que, se não forem bem resolvidas, podem arruinar a performance do executante. Para evitar que isso aconteça, vamos separar os estudos de forma a ajudar a construir uma maneira diferente de pensar o fraseado com o pé esquerdo. Peço desculpas aos canhotos que, mais uma vez, terão de tratar o lado direito como esquerdo e vice-versa.

1 - Vamos pensar em grupos de três semicolcheias distribuídas da seguinte forma:

E repetimos este grupo até completar dois compassos de 2/4, assim:

Lembremos que todos os exercícios terão por trás um ostinato de samba com bumbo e prato de condução:

Juntando as duas partes teremos:

Agora toque os pentagramas separadamente. Ouça cada um cuidadosamente, e então junte os dois. Ouça a resultante.

2 - O próximo passo é começar o mesmo padrão na segunda semicolcheia, assim:

Neste ponto a sensação de desequilíbrio aumenta. Aprenda e tente resolver esta nova relação entre os pés.

3 – Agora comece na terceira semicolcheia, desta forma:

Você pode começar pela quarta semicolcheia, mas tenha em mente que, mecanicamente, esta frase é igual à primeira.

4 - Faça os mesmos procedimentos com o grupo a seguir:

Este grupo trará novas e boas complicações porque os pés se encontrarão. Neste caso, a última semicolcheia do segundo tempo do primeiro compasso com a primeira semicolcheia do próximo.

Deixo aqui uma pergunta que responderei na próxima lição: qual o nome técnico dado ao efeito que criamos quando tocamos repetidamente uma sequência de três notas sobre tempos cuja subdivisão é quaternária (como no exemplo da linha de caixa e chimbal acima)?

Bom estudo, grande abraço e até a próxima.


Nelton Essi é bacharel em música pelo Instituto de Artes da UNESP, professor da Fundação das Artes de São Caetano do Sul, timpanista da Orquestra Jazz Sinfônica do Estado de SP, percussionista da montagem do musical “A Bela e a Fera” e faz parte do trio de baterias Trincadicabum. Contatos: neltonessi@gmail.com; www.myspace.com/neltonessi; www.myspace.com/trincadicabum.

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